Vingadores

Os Vingadores | Sonho nerd


E a Marvel conseguiu, quatro anos e cinco filme depois de iniciarem essa espécie de “sonho nerd” de juntar os “Maiores Heróis da Terra” (“Earth´s Mightiest Heroes”), Os Vingadores chega aos cinemas, empolgante e impecável, tanto para os fãs mais antigos quanto para os mais recentes amantes dos heróis da editora de quadrinhos que ganhou o cinema.

Por isso, se no fim dos créditos (pouco antes de uma surpresa cósmica que vai deixar muitos fãs pulando em suas cadeiras) o filme é creditado ao diretor Joss Whedon (aquele mesmo que criou a caçadora de vampiros, Buffy, e ainda a série de ficção cult, Firefly, que depois virou o telefilme Serenity), é por que essa meia década de trabalho culminou, para a sorte dos fãs e dos espectadores “normais”, no colo desse cara, aparentemente, humilde e que conseguiu agregar esse elenco enorme, nessa história mais enorme ainda que vem sendo contada desde que Robert Downey Jr. sobreviveu a um estilhaço no coração em Homem de Ferro.

Os Vingadores é então o ponto final da primeira frase dessa história, onde o Capitão América (Chris Evans), Thor (Chris Hemsworth), Homem de Ferro (Robert Downey Jr.) e Hulk (Mark Ruffalo) se juntam à espiã Viúva Negra (Scarlett Johansson) e ao agente da SHIELD Gavião Arqueiro (Jeremy Renner) para impedir que o meio irmão do Deus do Trovão, Loki (Tom Hiddleston) domine a Terra com a ajuda do Tesseract (Cubo Cósmico, para os mais íntimos) e de um exército de alienígenas, os Citoraukis.

O melhor de tudo isso é que, mesmo com todas as referências, a adaptação dos heróis da Marvel ainda é um filme independente de qualquer outro, que ganha um tamanho enorme se enxergado no contexto de todos outros filmes, mas que, principalmente, funciona perfeitamente bem sozinho. E nesse momento é preciso dar o crédito ao roteiro escrito pelo próprio Whedon (a partir de uma história de Zak Penn, conhecido por ter trabalhado nos textos de X-Men 2 e de O Incrível Hulk), que consegue, do que poderia ser uma enorme guerra de “egos super-heróicos” criar um filme de ação eficiente.

Eficiente, por que tudo parece estar em seu perfeito lugar, seus heróis são apresentados, suas motivações são jogadas na mesa, grandes discussões desenvolvem o relacionamento entre esses personagens e todos saem na porrada entre si (para o deleite dos fãs, mas assim criando uma hierarquia dento da equipe e demonstrando bem o papel de cada um), tudo isso sem parecer enrolação. É realmente impressionante como cada um dos seis exerce um papel igualmente importante dentro da trama e tem seu momento de destaque (ou sua frase de efeito),  com o intuito de chegarem a esse objetivo maior: que é ficar no centro dessa sequencia onde a câmera rodeio o grupo preparado para combater os invasores, fazendo pose no meio de uma rua destruída de Manhattan. Assim como nos quadrinhos.

É lógico que Downey Jr e seu Tony Stark acabam recebendo as melhores frases, as melhores tiradas (e por que não, um pouco mais de destaque dentro da trama), e é essa impecabilidade que mais salta aos olhos, já que Whedon tem a total consciência, não só da personalidade de Stark, mas também do quanto, depois de dois filmes, ele é um personagem mais pronto, assim como Downey Jr. é muito mais seguro, o que permite então que todos outros à sua volta possam se destacar através da força narrativa do Homem de Ferro. É através dele que o novo Bruce Banner, Mark Ruffalo, consegue impor esse cientista meio inseguro (e, é verdade, ao se transformar no monstro verde render alguns dos momentos mais divertidos do filme), assim como faz então com que o “deslocado no tempo” Steve Rogers acabe, não só voltando a ser o Capitão América (no sentido de desenvolver melhor sua personalidade), mas também se torne o líder dessa equipe (o Thor, bom… o Thor participa de meia dúzia de piadas, mas um Deus de Asgard não precisa muito ser desenvolvido).

Mas assim como naquele plano citado, onde os seis heróis são rodeados pela câmera, Os Vingadores para Whedon parece ser exatamente isso: uma enorme possibilidade de sequencias, composições e planos cheios de estilo. E para que tudo isso funcione, Whedon resolve fazer o “arroz com feijão”, talvez anabolizado por todos os efeitos especiais e estética fantástica, mas ainda assim sempre a opção mais simples e objetiva. Um caminho que mantém o tom dos outros filmes, onde a realidade é surpreendida por essa fantasia (seja tecnológica, seja asgardiana, seja a de um monstro verde ou de um supersoldado usando as cores da bandeira), mas nunca deixa de ser separada por essa linha tênue. Whedon não deixa então que ninguém no cinema acorde desse transe que vem sendo preparado ao longo dos anos.

Os heróis de Whedon, mesmo lutando contra uma horda de alienígenas e um Deus Asgardiano, são os “maiores heróis” dessa Terra onde todos no cinema moram, não de alguma outra qualquer criada na cabeça de algum escritor, mais precisamente, em uma Manhattan visitada por uma câmera sem cortes, comandada por Whedon, em parceria com a fotografia de Seamus McGarvey (que também foi diretor de fotografia, e até indicado ao Oscar, por Desejo e Reparação, onde já tinha experimentado um outro fantástico plano sequencia), que, como em uma “Splash Page” (aquelas páginas duplas onde a ação toma um único quadro), mostra todos heróis em ação.

E o maior acerto de Os Vingadores talvez seja isso mesmo: tirar dos quadrinhos e levar para o cinema toda diversão, sinceridade e cumplicidade que vem conquistando tantos fãs por tanto tempo. O espectador vai acreditar naquilo tudo que está vendo na tela, assim como se deixa viajar nas páginas de uma revista em quadrinhos, e isso é o suficiente para conquistar crianças, jovens, adultos e velhos em qualquer lugar do mundo. Por isso, “Avante Vingadores!”.


The Avengers(EUA, 2012) escrito por Zak Penn e Joss Whedon, dirigido porJoss Whedon , com Chris Evans, Mark Ruffalo, Chris Hemsworth, Scarlett Johansson, Jeremy Renner, Samuel L. Jackson, Tom Hiddleston e Clark Gregg.