Os Outros Caras

por Vinicius Carlos Vieira em 27 de Novembro de 2010

Em um certo momento de “O Âncora”, de 2004, o personagem título e seus companheiros de programa entram em uma batalha medieval contra outros âncoras e suas equipes, espadas, maças, lanças e tudo mais que puder ser imaginado. Depois de decepações, cortes e queimaduras, tudo volta ao normal, se é que aquilo já era normal. Esse é o humor de Adam McKay, anárquico e despreocupado com qualquer sentido, infelizmente um humor que passa longe de seu novo “Os Outros Caras”.

Não que essa comédia sobre dois detetives de Nova York não seja engraçada, em alguns momentos até é, mas pelo que em certos outros se permite ser, acaba não atingindo nem de longe todo seu potencial. Enquanto uma espécie de non-sense acaba sempre circundando todas as cenas, nada parece dar esse ultimo passo ultrajante em direção a falta total de sentido.

No começo do filme o espectador é apresentado a esses dois “tiras” que vivem “sobre a linha tênue entre a lei e o caos”, explodindo carros e dando prejuízos de milhões para a cidade enquanto prendem três bandidos responsáveis pelo roubo de “alguns mil dólares”. Sua chegada na delegacia é festejada por todos, Samuel L. Jackson em seu visual Shaft e Dwayne “The Rock” Johnson com sua camisa escrito “police”, são os astros da Força Policial, enquanto Will Ferrel, um contador que caiu de pára-quedas na função e Mark Wahlberg, relegado à sua parceria por ter tido um incidente na final do campeonato de baseball, são os outros caras.

É lógico que a história é sobre esses dois perdedores, e mais óbvio ainda que a grande maioria da graça estará justamente nesse relacionamento, o que “Os Outros Caras” não consegue é fazer isso se juntar a uma trama sobre um investidor inglês pronto para dar um golpe, sem cair, justamente, em uma história policial meio corriqueira demais. Mesmo que em certo momento, o detetive vivido por Ferrel, que é claro tem os melhores momentos, ameace seu parceiro por meio de um cardume de atuns que vão inverter a cadeia alimentar e passar a serem predadores de leões, esse ritmo insano não consegue perdurar por todo resto do filme. Como se McKay parecesse com medo de não fazer o menor sentido. E ele não faria. E isso seria o melhor do filme.

A dupla de policiais, Jackson e “The Rock” pulam de um prédio de vários andares “mirando os arbustos” sem pestanejar, em uma câmera lenta digna de um filme de aventura (agora um spolier!!!), em seus velórios, os policiais cochicham por que os dois fizeram aquilo, mas em nenhum momento se aponta uma resposta (talvez a idiotice dos filmes de aventura explique), enquanto o personagem de Wahlberg até tenta apontar que o prédio não tinha nem um toldo, tudo de jeito cínico, sem perder a seriedade em um frame sequer. Para o espectador de primeira viagem, é difícil até saber se aquilo é engraçado ou não (pelo menos para o público que não entender a referência), e por isso mesmo, no momento que uma certa trama mais séria dá as caras, sem uma “gracinha visual” sequer, ela acaba atrapalhando o andamento do filme por se fazer confundir com esse senso de humor estranho, que no caso dela não tem graça nenhuma, é até normalzinha demais.

O resto do tempo, talvez o público no cinema que se deixar levar pela idéia caótica, até conseguirá achar alguns bons momentos no filme, como o chefe vivido por Michael Keaton, que cita o trio de R&B “TLC” a cada final de frase e que também faz sempre questão de lembrar da bissexualidade de seu filho, ou até do personagem de Wahlberg, sempre chegando nas conclusões mais estapafúrdias (na verdade sempre lembrando um clichê de outro filme), mas nada que tenha uma sequencia, como se não conseguisse manter o ritmo entre uma coisa e outra, se tornando até chato quando, lá para o final precisa encarar mais ainda seu lado aventuresco policial.

No final da contas, “Os Outros Caras” é como o momento em que o personagem de Wahlberg invade uma aula de balé da ex-namorada e a acusa de estar ali fazendo striptease com um drogado, pouco antes de fazer um monte de passos de balé, enquanto, por trás, Ferrel repete aos gritos tudo que o amigo fala, uma sequencia quase esquizofrênica, que não tem o menor sentido e só tem graça exatamente por isso. Mas que, se colocada de lado e separada do resto, é apenas uma tentativa sem ritmo de mostrar uma trama (a de seu problema com a ex) banal por meio de um desculpa, essa sim, sem o menor sentido.

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The Other Guys (EUA, 2010), escrito por Adam McKay e Chris Henchy, dirigido por Adam McKay, com Samuel L. Jackson. Dwayne Johnson, Eva Mendes, Michael Keaton, Mark Wahlberg, Ray Stevenson e Steve Googan

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