Os Anarquistas | Drama sobre revolução não foge do romance pouco interessante

Os Anarquistas Filme

Uma névoa cinzenta cobre a fotografia de Os Anarquistas, um filme que trata mais da desesperança de um grupo revolucionário à margem de qualquer comparação do que a possibilidade de vitória.

E vitória, para eles, é o fim da burguesia e do protetor-mor dessa classe, o Estado. Não há nada no lugar, pois o capitalismo ainda é uma sombra do que irá se tornar, e os conceitos de propriedade privada seriam elementos mais de discordância do que de harmonia nas vozes desses intelectuais. O filme nos coloca no centro dessa mini-revolução idealista através dos olhos de Jean (Tahar Rahim), um policial infiltrado que igualmente não vê esperança em seu destino se continuar onde está. Ambicioso e prático, larga sua namorada deixando de presente um livro que ele gosta.

O grupo principal, que mora em uma casa grande e burguesa, é formado por pessoas simpáticas e com muito espaço para dúvidas e divergência, como mostra o primeiro e último debate político no bar onde se encontram. O grupo que acompanhamos é dos mais radicais, que não acreditam no processo político para conseguir mais direitos aos trabalhadores.

Nesse sentido, o filme claramente define os limites entre o anarquismo e o comunismo – ou socialismo – da época. Infelizmente, a discussão termina por aí, e passamos a acompanhar mais sobre o romance entre Jean e Judith (Adèle Exarchopoulos, de Azul é a Cor Mais Quente), algo que não necessariamente gera tensão com o líder do grupo, Eugène (Guillaume Gouix), já que a bandeira do amor livre já fazia parte do pacote.

Além disso, presenciamos o aparecimento de personagens que representavam esse pensamento na virada entre os séculos IXX e XX, mas nunca com mudanças significativas. Apesar da única figura histórica, Mikhail Bakunin, ser citado de passagem, fica claro que o diretor Elie Wajeman, ao trabalhar o roteiro com Gaëlle Macé, estava mais interessado em esboçar um grupo revolucionário qualquer da moda para servir de pano de fundo de um romance clichê. Com o nome “anarquismo” e suas variantes aparecendo cada vez mais nas discussões políticas atuais, fica simples entender de onde veio essa necessidade de desenterrar um grupo filosófico sempre colocado à margem dos grandes pensadores, talvez justamente por nunca defender grandes nações, e considerar Paris um lugar “sem ar nenhum”.

Os Anarquistas Crítica

Impressionante mesmo é a capacidade do diretor em nos gerar asfixia. Sempre com closes próximos e sombras em todos os cenários, quase não vemos a sufocante Paris de que falam, mas sim os chãos imundos da fábrica onde trabalhavam, ou dos espaços fechados e apertados dos bares onde se encontravam. Ao mesmo tempo, uma fotografia e figurino absolutamente sombrios carregam a desesperança que um grupo desses deve sentir, lutando contra tudo e todos, nunca conseguindo apoio de fato de mais do que meia-dúzia de uma elite que tenta evitar a morte precoce de um ideal nobre, mas rapidamente esmagado pelo braço forte de um Estado cada vez mais alimentado pelo poder econômico de uma burguesia crescente.

O filme se aproveita de maneira competente de Adèle Exarchopoulos como uma figura enigmática – nunca sabemos o que ela ou outras mulheres realmente fazem, exceto que uma escreve – e também sensual, mas servindo muito mais como um objeto sexual com beleza de sobra e personalidade de menos; algo muito diferente de sua personagem em Azul é a Cor Mais Quente, um romance intimista muito mais eficiente.

Por outro lado, a presença de Tahar Rahim é sentida, e seu personagem promete uma curva mais ou menos esperada de histórias desse formato (“infiltrado se apaixona pela causa ou por uma mulher que ali estava”). Ainda assim, o filme trata como se isso fosse algo digno de surpreender, mas se esquece de colocar uma trama o suficiente para pescarmos a tensão de ser um infiltrado, fora a ambição desmedida do rapaz. Não se trata de entender os riscos e lidar com eles, mas de apenas acompanhar um grupo paranoico em alguns momentos, mas extremamente relaxado em outros. Tudo isso tira a verossimilhança, ou torna o resultado mais naturalista do que pareceria poder ser.

Dessa forma, Os Anarquistas é um resultado interessante esteticamente, usa um grupo revolucionário da moda – nem que seja apenas o nome – mas nunca consegue decolar, pois carece de história necessária para isso. A vida como anarquista é muito mais simples e muito menos tensa que qualquer religioso/estatista sonha em ter. Assim como um filme que lida com espiritismo, conseguir tensão do ar da liberdade é algo extremamente difícil.


“Les anarchistes” (Fra, 2015), escrito por Gaëlle Macé, Elie Wajeman, dirigido por Elie Wajeman, com Tahar Rahim, Adèle Exarchopoulos, Swann Arlaud, Guillaume Gouix, Karim Leklou


Trailer – Os Anarquistas

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