Os 7 de Chicago | Não é o melhor do ano por pouco


Falta pouco para Os 7 de Chicago ser lembrado como um dos melhores filmes de 2020.  Com uma história real e famosa, um elenco tão cheio de estrelas que dificilmente será ultrapassado por algum outro filme nesse ano e, é claro, um roteiro incrível, só falta um diretor. E isso realmente faz uma falta enorme para o resultado final.

O texto e a direção são assinados por um dos nomes mais celebrados do cinema atual, Aaron Sorkin, ganhador do Oscar por seu roteiro de A Rede Social, mas que conseguiu imprimir seu estilo em Hollywood e fazer com que suas criações tenham uma personalidade incrível. Seus trabalhos nas séries West Wing, Studio 60 on the Sunset Strip e Newsoom são impecáveis, seus roteiros em Jogos de Poder, O Homem que Mudou o Jogo e Steve Jobs o levaram para um outro patamar do cinema americano. Infelizmente ele é um diretor sem os mesmos atributos.

Sorkin já tinha sentado na cadeira de diretor em A Grande Jogada, um filme que precisava bem menos de um diretor do que Os 7 de Chicago, que é praticamente um épico de tribunal repleto de personagens e se sobressai pelo embate entre esses mesmos, e não uma trama com qualquer tipo de surpresa.

Para se ter uma ideia do quer dizer essa “falta de diretor” em Os 7 de Chicago, lembre-se que o primeiro grande sucesso da carreira de Sorkin foi o roteiro (baseado na sua peça) de Questão de Honra, dirigido por Rob Reiner e que eternizou a cena entre Tom Cruise e Jack “You Can´t Handle the Thruth” Nicholson. Não existe nada nem parecido com isso em Os 7 de Chicago, ainda que tivesse material para situações com o mesmo peso.

O filme é baseado na história real do julgamento de sete líderes da manifestação de 1968 que tomou Chicago durante a Convenção do Partido Democrata. O objetivo principal era gritar pelos jovens sendo mortos do Vietnã diante da desastrosa política externa dos Estados Unidos, mas o que era pacífico se tornou um conflito generalizado entre a polícia e os manifestantes.

O julgamento se transformou em um circo midiático, durou mais de 150 dias e, em nenhum momento, era dado como isento, na verdade era uma tentativa do novo governo de Nixon de usar esses sete réus como exemplo.

Sem fugir de seu estilo, Sorkin constrói o filme quase como um maestro escreve uma música. Quem dá ritmo a tudo são seus diálogos, cortados na apresentação como se criasse um mosaico, preferindo uma velocidade menor no recheio de sua história e sempre contando com o esforço de sobreposição de ideias e uma agilidade na troca de personagem para enfatizar uma tensão, por menor que seja. Tudo isso culmina em um diálogo poderoso, gritado, cheio de surpresas, extremamente rápido e misturado, para representar seu ápice.

Enquanto os ganhadores do Oscar Eddie Redmayne e Mark Rylance se enfrentam, Sorkin chega onde ensaio durante todo o resto do tempo. O momento é poderoso, esclarecedor e, depois que você respira, se torna um alívio.  Mas é o montador Alan Baugarten que fica com o trabalho mais pesado, entende perfeitamente bem o ritmo do texto do roteirista e salva grande parte do trabalho de Sorkin da direção, que parece não ter mais intenções estética do que simplesmente colocar seus atores para falar.

Em certo momento, logo no começo, Sorkin até entrega um plano um pouco mais longo enquanto passeia pelo começo do julgamento, mas isso nunca é nem perto de impressionante e muito menos se repete. Sua câmera não valoriza seu próprio texto, deixa a impressão de não conseguir prever o que vai acontecer em seguida e apenas reproduz o instante. O bom disso é que esse “instante” está na mão de um elenco incrível.

Rylance é cada vez mais incrível em qualquer coisa que faz. Em Os 7 de Chicago, constrói esse advogado que sabe o quanto seu papel ali é apenas figurativo, perdido entre a vontade de defender seus clientes e enfrentar a opressão desse governo. Mas como uma impressão e um cansaço de quem sabe que tudo é meio em vão. Rylance é um daqueles atores onde as palavras do roteiro ganham vida e veracidade, você acredita naquele personagem.

Do outro lado desse julgamento, o juiz Julius Hoffman de Frank Langella é uma força da natureza, juntando uma certa maluquice que briga o tempo inteiro com a racionalização de suas decisões. O roteiro de Sorkin ajuda demais a composição desse conflito do personagem, mas é Langella quem faz ser crível essa complexidade toda. É impossível acabar Os 7 de Chicago sem odiar o juiz.

Entre os réus, Redmayne tem apenas um momento para cravar sua atuação na memória dos espectadores, mas no resto do tempo o destaque fica mesmo com a revolução hippie dos personagens de Jeremy Strong e Sacha Baron Cohen. Strong aposta em um cover eficiente do Chong, enquanto Baron Cohen aproveita mais essa oportunidade para se desgarrar de seu Borat e mostrar o quanto consegue criar um personagem sutil e que fica o tempo inteiro entre o cômico e o intelectualmente subestimado.

É preciso ainda uma menção honrosa para a curta participação de Yahya Abdul-Mateen II como Bobby Seale, membro dos Pantera Negras que acaba sendo acusado ainda mais injustamente que os outros. No pouco de tempo que Abdul-Mateen tem em tela, todas oportunidades são aproveitadas e agarradas com raiva e uma presença incrível de um dos grandes atores da atualidade em Hollywood.

Mas voltando aos protagonistas, Baron Cohen teria em Os 7 de Chicago a oportunidade de alçar voos ainda mais altos se tivesse a ajuda de um diretor um pouco mais hábil que Sorkin. Seu personagem tinha todos detalhes precisos para brilhar, mas acaba se tornando apenas mais um em meio a um elenco enorme.

Os 7 de Chicago sofre do mesmo problema. Com um diretor mais capaz por trás do roteiro incrível de Aaron Sorkin, o resultado seria um filme impecável e, com certeza, um dos melhores de 2020. Sem esse diretor, o filme, felizmente, só falha nesse quesito, mas é um problema tão aparente que é impossível não perceber todos talentos desperdiçados.


“The Trial of the Chicago 7” (EUA, 2020); escrito e dirigido por Aaron Sorkin; com Eddie Redmayne, Alex Sharp, Sacha Baron Cohen, Jeremy Strong, John Carroll Lynch, Yahya Abdul-Mateen II, Mark Rylance, Joseph Gordon-Levitt, Leonard Weinglass e Frank Langella