Origens Secretas | “Seria mais fácil se fossem os sete pecados capitais”


A ideia é boa, se perde um pouco no meio do caminho, mas ainda assim é um esforço simpático para conversar com uma fatia da sociedade que deixou de ser invisível e hoje se tornou fiel da balança em termos dos lucros da indústria cultural. Origens Secretas é praticamente um ”Seven nerd”, prontinho para esse público que hoje é tão privilegiado.

A trama nasce do livro escrito pelo próprio diretor David Galán Galindo e mostra um serial killer que começa a fazer vítimas aleatórias, até que o filho nerd de um detetive (Brays Efe) aponta uma ligação delas com as origens de alguns dos maiores heróis dos quadrinhos. O resultado disso é o nerd tendo que investigar o caso com o policial “old school”, David (Javier Rey).

A dupla ainda tem a companhia da chefe de polícia e cosplayer, Norma (Verónica Echegui), mas o que os fãs querem mesmo é referências e easter-eggs, e disso o filme está cheio. Também está repleto de umas opções temáticas que reforçam um estereótipo que eles mesmo tentam lutar contra, mas mesmo assim a diversão é garantida para os fãs de HQs.

O jeito com que Galindo constrói as referências é divertido, força a barra na medida certa e nunca esqueça de estar dentro de um filme de serial killer, daquele que adora assassinos sádicos e mortes excêntricas. O resultado visual disso também funciona. Origens Secretas faz valer àquilo que se propõe, e isso já é mais do que a maioria esmagadora dos filmes do gênero conseguem fazer.

Infelizmente o filme falha na hora de tentar ser aquilo que, justamente, ele poderia estar criticando. A dinâmica entre o “policial durão” e o “cara nerd” funciona, mas faltam epifanias do segundo para ele se tornar uma peça importante para o roteiro na hora de desvendar o mistério. Pior ainda, a própria trama caminha de um jeito que faz sua presença ser completamente descartável no terceiro ato, literalmente falando, já que ele nem fica muito presente nele.

Origens Secretas é então um filme de serial killer nerd onde o herói não é o nerd, mas sim o cara que acha que todo nerd é um bobão que lê mais gibis do que devia. Tudo bem, esse apontamento pode parecer emocional e sem isenção vindo do autor desse texto cheio de HQs em suas prateleiras, mas a questão principal é, justamente, a do filme parecer tentar quebrar os estereótipos, mas faz pouco esforço para isso.

Se relacionar o gosto de gibi à obesidade ao escalar Efe para o papel de Jorge já seria um problema, fazê-lo ser um cara sem o mínimo de traquejo social, enfurnado em um quarto, com uma roupa que não cabe nele e um relacionamento onde destrata o pai é o mesmo que aceitar uma série de clichês desgastados e pouco interessantes. Do mesmo jeito, a ideia de “menina cosplay sexy” é uma ideia retrógrada e que vai de encontro ao esforço enorme dos praticantes desse hobby e que tentam “quebrar” esse “fetichismo machista e homofóbico” que tanto lhes prejudica.

 Por baixo dessa capa há ainda uma motivação de vilão que não é nem de perto é uma novidade e devia pagar royalties para o M. Night Shyamalan. E ao afastar dela o nerd, a solução é agradável e cheia de referências, mas nunca, nem de perto, minimamente criativa. Mas Origens Secretas parece satisfeito com esse nível de mediocridade, o que é uma pena.

A ideia bacana e a oportunidade de quebrar alguns paradigmas faria de Origens Secretas um daqueles filmes a serem lembrados, já essa mistura preconceituosa de Corpo Fechado com Seven e Marvel Comics (tem um pingo de DC, mas o resto é da Casa das Ideias), será realmente esquecida.


“Origenes Secretos” (Esp, 2020); escritor por David Galán Galindo e Fernando Navarro; dirigido por Davida Galán Galindo; com Javier Rey, Verónica Echegui, Bray Efe, Antonio Resines, Ernesto Alterio e Leonardo Sbaraglia


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