Onde Quer Que Você Esteja | Para os que ficam


Pelos sobrenomes dos dois diretores de Onde Quer Que Você Esteja, Bel Bechara e Sandro Serpa, você não imagina que são casados, mas na coletiva de imprensa que aconteceu logo após a exibição do filme pode-se perceber a simbiose típica que ocorre entre duas pessoas que conviveram muito tempo juntas.

Bel é encantada com os detalhes encontrados pelo seu elenco para enriquecer ainda mais seus personagens, como a ideia de Debora Duboc de sua personagem reciclada de um curta poder cantar em algum momento; para ela são esses pequenos momentos que valeram a pena todos os problemas orçamentários pelos quais os dois passaram durante a produção.

Sandro, introspecto, possui uma visão técnica apurada sobre o projeto, entregando filmes de referência para seus atores se prepararem. No entanto, Bel também se interessa pelo processo, e observa todo o trabalho de ajustar as inúmeras camadas de som de um filme onde boa parte se passa em uma estação de rádio e com pessoas conversando ao fundo. E logo você vê que esta é de fato uma co-direção, onde não há hierarquia, mas parceria.

Ambos fizeram um curta há muito tempo explorando uma notícia de que havia uma rádio na Colômbia que servia para anunciar pessoas desaparecidas. Usado muito naquele país por causa dos frequentes sequestros das FARCs, os diretores transpõem essa ideia para São Paulo, Brasil, onde pessoas de uma classe social que escuta rádio busca conforto em divulgar ao município o desaparecimento de seus entes queridos: filhos, maridos e esposas que sumiram de repente e criam um vazio que precisa ser preenchido por qualquer ação que dê sentido à sua busca, ou que pelo menos ela não acabe. Então o filme começa a discutir se essa busca sem fim é algo bom ou ruim na vida dessas pessoas.

Há muitos personagens neste filme, fragmentos de uma realidade muito próxima de quem vive em megalópoles como São Paulo, onde desaparecer e nunca mais ser visto pode ser questão de segundos. Temos a oportunidade de observar isso acontecendo em uma cena próximo do final. Além disso, para relacionamentos abusivos, sumir sem dar notícia pode ser uma válvula de escape necessária, e ainda que não saibamos dos reais motivos de vários maridos, esposas e adolescentes que se foram, sabemos por instinto que isso não aconteceria se houvesse preenchimento onde estavam.

Essa é uma dicotomia valiosa ao acompanharmos a rotina muitas vezes problemática das pessoas que ficam em um estado de eterna espera. Uma família prepara uma festa de aniversário para o garoto de sete anos que está há quarenta dias desaparecido, anuncia na rádio, canta parabéns ao vivo. Se não há ninguém de fora para dizer que isto é uma loucura ficamos envolvidos na estranheza da situação: um bolo feito com carinho pela avó para um neto que ela sabe que não virá; o clima festivo dentro de uma família que não aceita o luto porque ele nunca foi anunciado.

Bel Bechara e Sandro Serpa sabem usar rimas e apelos visuais de maneira sutil em um roteiro que não necessita de texto expositivo. No começo do filme observamos os presentes amontoados da festa citada em uma cama que não é usada há mais de um mês, e perto do final temos a visão do quarto de outra criança, vazio, mas ainda quente, criando uma tensão inconsciente no espectador.

Acompanhamos a rotina da casa de um senhor de meia-idade se desmanchar desde que sua esposa sumiu. As roupas e a louça se acumulam. Ainda sobrou café da véspera, pois provavelmente a velha cafeteira surrada fazia a bebida certinha para os dois.

Outros detalhes da história são muito sutis, inacessíveis ao espectador em um primeiro momento e bem-vindos em uma revisita. Há uma senhora, Lúcia, que é especialista em deixar mensagens na rádio. Ela é interpretada por Debora Duboc com uma convicção ritualística que nos faz crer que sua personagem vive esse momento há oito meses quase que com felicidade: ela toma banho, se arruma, passa pela portaria de seu prédio e vai direto para a rádio, com seu discurso preparado e decorado de antemão para o marido desaparecido. Isso é o que ela tem para hoje. Por isso entendemos, ainda que de forma inconsciente, que a chegada de um pretendente pode retirar a única coisa que restou de seu marido: a espera e as declarações de amor pela rádio. Lúcia é mais complexa do que a história nos permite enxergar, e como vários detalhes da história ficam sem ser ditos perde-se um pouco do impacto do seu arco.

Isso já não acontece com Zélia, que trabalha em um mercado, portanto rodeado de gente, mas que não consegue se conectar com ninguém, vivendo solitária. Ela observa de sua janela os vizinhos: uma mãe e seus sete filhos. Você não leu errado. Sete filhos em São Paulo. Não é à toa que não se vê o marido. Zélia faz parte da parte mais cômica e leve do projeto, pois introvertida, é desengonçada sem exagero e nutre uma saudade há vinte anos pela babá, a quem considera uma segunda mãe, que nunca mais viu. A atriz Sabrina Greve está mais acostumada a personagens dramáticos, mas sua Zélia vira um respiro de novos ares muito bem-vindos, pois sua dedicação ao humor da personagem, sob o controle dos diretores, manteve o interesse do espectador em uma história trivial em torno de tantos temas pesados como um respiro necessário.

Onde Quer Que Você Esteja é um filme de baixo orçamento que faz milagres em sua produção. Uma delas é o controle do som. Estamos em uma rádio e há dois ambientes: dentro e fora do estúdio. Além disso, pessoas aguardando do lado de fora conversam entre si, gerando diversos planos sonoros que precisam harmonizar diálogos fora da ação em meio a vinhetas, música e conversa paralela. Além disso o design de som é preciso, onde até o barulho ao se abrir uma janela de ferro velha é capturado, apenas para ter uma ideia de que baixo orçamento não é sinônimo de trabalho relapso. Bel Bechara e Sandro Serpa conseguem um elenco equilibrado sem realizarem muitos testes, e enquanto alguns se saem muito bem, como Greve e Duboc, nenhum deles prejudica a história. Exceto, talvez, pela menina do filme que parece saída de um comercial de TV e nos traz a mensagem errada: ela não incomodaria se desaparecesse do filme. Mas são pedadilhos como esse que passam despercebidos frente à obra geral.

Mas por falar em mensagem, ela se torna confusa no terceiro ato e no filme como um todo, pois ao tentar embutir diversos subtextos em seu roteiro, o casal Bel/Sandro precisariam cortar mais na pós-produção para manter coeso seu universo de ideias. Do jeito que sairá nos cinemas o filme não apenas contém um terceiro ato inchado, daqueles com vários falsos finais, como mantém ideias desconexas juntas, na tentativa de garantir representatividade em todos os tipos de história de desaparecimento. Vira uma ficção com cara de documentário, destruindo boa parte das expectativas de arcos em seu início promissor e nas conclusões de algumas história lá pelo meio.

Esse seria um grande defeito? Sabemos que a vida é caótica e que tudo é possível em casos de desaparecimento. Onde Quer Que Você Esteja não é fantasioso a ponto de ignorar uma premissa tão importante, mas seu erro é justamente tentar colocar alguma ordem em uma narrativa que já ficaria de bom tamanho em apenas abraçar o caos metropolitano, alimentar os sentimentos de ausência do outro, e analisar os dos que ficaram.


“Onde Quer Que Você Esteja” (Brasil, 2018), escrito e dirigido por Bel Bechara e Sandro Serpa, com Eduardo Acaiabe, Rita Batata, Rodrigo Caetano, Samuel de Assis, Debora Duboc, Robson Emílio, Dagoberto Feliz, Sabrina Greve, Brenda Lígia, Rafael Maia, Leonardo Medeiros, Luiza Mesquita Maia, Juliana Mesquita, Erica Montanheiro, Gilda Nomacce, Samya Pascotto, Cleide Eunice Queiroz e Lucas Wickhaus.


 

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