Oldboy – Dias de Vingança

Oldboy

Dentre a magnífica Trilogia da Vingança do cineasta sul-coreano Chan-wook Park, Oldboy é o mais conceituado. Dez anos depois de seu lançamento, a obra ganha um remake hollywoodiano nas mãos de Spike Lee (e, no Brasil, o subtítulo Dias de Vingança), Oldboyque faz modificações em algumas reviravoltas mas, basicamente, segue o original – criando no caminho um filme tenso e de qualidade, mas que empalidece diante do sul-coreano.

O Oldboy de Park é baseado no mangá Garon Tsuchiya e Nobuaki Minegishi, mas Lee deixa claro já nos créditos iniciais que seu longa é “baseado no filme coreano”. O roteiro de Mark Protosevich, portanto, segue o protagonista Joe Doucett (Josh Brolin) em Nova York. Arrogante e patético, Doucett chega, por exemplo, a perder uma grande oportunidade de negócio apenas para tentar conquistar a (completamente desinteressada nele) esposa de um cliente em potencial. Depois de perder a festa de aniversário de três anos da filha, o que gera uma discussão com sua ex-esposa, ele circula alcoolizado pelas ruas chuvosas da cidade e, no dia seguinte, acorda no quarto do misterioso hotel onde ficará preso pelos próximos vinte anos. Após uma tentativa frustrada de fuga e sua consequente soltura, Doucett busca a identidade – e os motivos – de seu sequestrador.

É verdade que, mesmo sendo um clássico do cinema moderno, Oldboy não é uma obra tão conhecida – assim, é provável que grande parte do público desta refilmagem não conheça a trama original. Entretanto, é mérito de Lee que a tensão e a angústia sejam presenças constantes aqui mesmo para quem já sabe o que esperar. Sem perder o ritmo, o cineasta navega bem entre as gráficas cenas de violência (bem menos pesadas que as de Park) e o lado psicológico que, em quaisquer de suas adaptações, é o trunfo de Oldboy. É verdade, contudo, que, embora eficientes, as sequências de luta deste estão bem abaixo das sequências bastante realistas de Park: na icônica sequência em que o protagonista, armado com um martelo, enfrenta dezenas de inimigos, Lee faz algumas modificações na ambientação, mas grande parte dos homens parece permanecer parada enquanto espera Doucett se aproximar, diminuindo o impacto do resultado.

Oldboy

Da mesma forma, o impacto das diversas revelações do filme sul-coreano elevam a já excelente história de vingança e tortura psicológica a um patamar ainda mais alto; são reviravoltas que, apesar de chocantes, não são utilizadas como tentativas baratas de imprimir impacto a uma história rala. Isso se extende à refilmagem, que acertadamente modifica alguns pontos dos mistérios por trás do encarceramento do protagonista, mas não foge do tema principal e da polêmica. Contudo, a nova versão torna a busca por justiça de Adrian (Sharlto Copley) um tanto menos pessoal, o que, aliado à atuação caricatural de Copley, tornam o personagem uma figura pouco apavorante. Enquanto Samuel L. Jackson não tem muito o que fazer como o gerente do hotel, Elizabeth Olsen aproveita o papel maior de sua personagem em reação à equivalente no original, fazendo de Marie uma mulher com motivações e sentimentos claros. Finalmente, Josh Brolin conduz o longa com eficiência, estabelecendo Doucett como um homem mais arrogante mas tão fraco quanto o Oh Dae-su de Min-sik Choi – o que, por si só, já diferencia as duas versões da história.

Tecnicamente, a montagem é ágil e captura o clima de tensão da narrativa, enaltecendo a confusão psicológica do protagonista – o momento em que os gritos desesperados de Doucett acompanham o passeio da câmera enquanto esta nos apresenta ao quarto/prisão através de planos-detalhe é particularmente bem sucedida neste sentido. A fotografia, por sua vez, navega entre a decadência de madrugadas chuvosas e ambientes pouco iluminados para espaços abertos cheios de luz que, no contexto em que aparecem, revelam-se igualmente opressores.

O Oldboy de Spike Lee é, portanto, uma refilmagem que parece originada de um desejo de recontar uma história já existente mais do que simplesmente de “traduzir” uma história estrangeira para o mercado norte-americano (mesmo que, claro, acabe também fazendo isso). Conseguindo prender o espectador independente de este conhecer ou não o longa original ou o mangá, Lee acerta ao modificar a conclusão, criando um final tão impactante e melancólico quanto o de Park.


“Oldboy” (EUA, 2013), escrito por Mark Protosevich, dirigido por Stan Lee, com Josh Brolin, Sharlto Copley, Elizabeth Olsen, Samuel L. Jackson e Michael Imperioli.


Trailer do filme Oldboy

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