Observadores (The Voyeurs) | Um soft porn que deu muito errado

Observadores (The Voyeurs) | Um soft porn que deu muito errado


*por Flávia Saad, crítica convidada

Quando dei o play no thriller erótico Observadores (no original “The Voyeurs”), novidade na Amazon Prime, obviamente não estava em busca de grandes reflexões ou de um filme digno de estatuetas. Queria apenas um entretenimento levemente safado para uma terça-feira à noite – e que durasse menos de 2 horas, pois mãe solteira não tem muito tempo pra isso. Portanto, a culpa de eu ter escolhido esse filme recai, parcialmente, sobre a solidão da “carentena”.

No entanto, “Os Voyeurs” conseguiu traduzir com perfeição o meme “as nossas expectativas já eram baixas… mas p*@a me%&a!”. 

Vamos ao prognóstico. Este é, sem sombra de dúvidas, um dos piores filmes aos quais eu já assisti na vida. E olha que a lista é grande… O thriller erótico não é ruim do tipo “acidente do qual não consigo desviar o olhar”. É ruim de passar raiva. De sentir que estou tendo minha inteligência insultada. De querer assistir até o final para saber se eu fui mesmo otária o suficiente pra ver esse negócio por livre e espontânea vontade. 

Em pleno 2021, Observadores é muito pior do que qualquer soft porn que a gente cresceu assistindo na TV aberta nos anos 90. 

Aqui, vou abrir parênteses para dizer que os créditos iniciais se passam com uma versão meio “trip hop” de Eyes Without a Face, do Billy Idol e umas imagens meio lisérgicas de olhos (guarde essa informação). E essa é a única parte que presta nisso tudo. Depois da música, é só ladeira abaixo. 

Produção original da Amazon, o filme conta a história de Pippa e Thomas (Sydney Sweeney e Justice Smith). Um casal que decide ir morar junto em um apartamento que, obviamente, está fora dos meios de namorados recém-saídos da faculdade. Na primeira noite, os dois já estão falando de filhos (!). 

Observadores (The Voyeurs) | Um soft porn que deu muito errado

Também na primeira noite acabam flagrando o casal de vizinhos fazendo sexo (mecânico e cronometrado, aliás) na janela do prédio da frente. Essa descoberta faz com que comecem a observar os dois diariamente, consequentemente se excitando com aquilo tudo. Chegam até ao cúmulo de instalarem um microfone e claramente cometerem crime de invasão de privacidade. Isso até notarem que algo não vai bem no loft hipster da janela em frente.

Para o espectador que tem dois neurônios funcionais e consegue juntar “a + b”, fica bem claro com 20 minutos de filme o que vai acontecer no final dos outros longos 90 minutos que ainda restam de filme. 

Não sei o que parece mais forçado nesse suspense míope: as situações desse casal em seus vinte e poucos anos ou as atuações de simplesmente TODO o elenco. Com destaque para o Thomas robótico de Justice Smith e o fotógrafo sem sal que, aparentemente, transa com metade das mulheres de Montreal.

As metáforas sobre “olhar” e “visão” no filme são tudo menos sutis. Pippa trabalha como optometrista em uma ótica de luxo. Os binóculos do casal viram protagonistas da metade pra frente da fita. O marido traidor só clica modelos esculturais nuas e, claro, faz sexo com todas elas depois de tirar cinco fotos.

Há incontáveis buracos no roteiro, e não estou falando de maneira figurada, porque existem silêncios ridículos entre os personagens para dar tempo aos espectadores de processarem um enredo que nada tem de novo ou misterioso. Existem inúmeras falhas de contexto que, supostamente, explicam o final do longa, como o suco de clorofila que Thomas sempre bebe ou o presente de boas vindas à nova casa que Pippa ganha da sua chefe.

Mas um detalhe nunca escapa do clichê. Contado do ponto de vista de uma mulher Observadores tem roteiro e direção de (QUE SURPRESA!), um homem, Michael Mohan (um dos criadores da série Everything Sucks!, da Netflix). Portanto, tudo o que você, mulher que está lendo esse texto, deveria achar excitante ou desejar no sexo, foi pensado por um homem hétero, branco e com seus trinta e poucos anos. Portanto, não criem expectativas.

A escola 50 tons de Cinza, infelizmente, deixou marcas como Observadores no cinema erótico. 


“The Voyeurs” (EUA, 2021); escrito e dirigido por Michael Mohan; com Sidney Sweeney, Justice Thomas, Ben Hardy, Natasha Liu Bordizzo, Katherine King So, Cameo Adele, Cait Alexander e Jean Yoon


Trailer do Filme – The Voyeurs

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