O Valor de um Homem | Filme francês acompanha a desesperança de um homem

O Valor de um Homem Filme

Lá vamos nós de novo. O Valor de um Homem não é um filme difícil, mas pode se tornar um martírio para muita gente acostumada com histórias mais “palatáveis”. Esse é o típico filme que muitos comentam como “parado, sem nada acontecendo” ou, pior: sem final. Infelizmente, a história que ele pretende contar depende justamente dessa atmosfera opressiva, intimista e… parada. Sim, parada, já que não sai sequer um lufo de esperança para acalentar o protagonista desta história.

Thierry (Vincent Lindon) é um trabalhador. E está cansado de não conseguir trabalhar. Está desempregado há mais de um ano, mas vem procurando. Moralmente esgotado das conversas do grupo de colegas que foram demitidos junto com ele sobre processar a empresa, suas entrevistas denotam alguém com pouquíssimas chances de sucesso em um mundo muito competitivo e pouco caridoso com o próximo. Ele fala constantemente com sua gerente no banco, quase sempre a respeito de um empréstimo. Ela sugere decisões difíceis para Thierry, como vender o apartamento que estão quase quitando, e sutilmente sugere fazer um seguro de vida, o que pode parecer um simples ato de vendedora ou, no caso deste filme, algo que lembra os filmes mais depressivos do cinema coreano: às vezes a morte pode ser uma saída financeira.

Mas não se engane. Esse filme não é tão óbvio e fácil de entender ou interpretar, e sequer a caridade de que falo. Aqui ela é justamente a mais pura, original: a que ajuda as pessoas menos capazes da sociedade. E Thierry é, sim, bem incapaz. Ao menos nos moldes da realidade que vivemos, do universo do filme. Ele não está atualizado o suficiente para continuar em seu ramo, após a despensa da fábrica em que trabalhava sabe-se lá por quanto tempo.

Ele é incapaz até de fazer uma entrevista bem sucedida, e o vemos ser julgado por isso rodeado de pessoas sinceras demais. Preso a lembranças de uma época mais fácil, sua nostalgia o impede até de negociar a venda de um casebre que lhe daria alguma folga financeira. Mas não: Thierry é um humano simples que não consegue mais se encaixar no mundo.

O Valor de um Homem

No entanto, disposto a priorizar as chances de sucesso de seu filho, faz de tudo para conseguir encaminhá-lo nos estudos. O que é mais um problema. Não tanto pela sua limitação física, mas pela pressão para o garoto. Nesse sentido, o pai acaba sendo reflexo do próprio mundo em que vive, e onde a competitividade pode engolir as pessoas, e onde os superiores no cargo, ou empregadores, quase nunca possuem discernimento para julgar pessoas. E, no entanto, é justamente isso que fazem.

E é exatamente aí que o filme se torna um exercício fascinante de abstração. Quanto pensamos que este vai ser um filme trágico, ele de desenvolve através de sua ruptura: Thierry arruma um emprego. No entanto, sua nova função é mais um artifício para discutir o tema do julgamento do próximo. Infelizmente, o filme de Stéphane Brizé é maniqueísta demais para entregar algo mais complexo do que a visão limitada de um mundo feito de zumbis, e onde as relações entre os seres humanos são todas frias.

Vincent Lindon faz aqui uma interpretação econômica e poderosa. Ele já foi o homem comum de Mademoiselle Chambon, do mesmo diretor. Agora ele é um homem comum sendo esmagado pelo sistema, e quando não o vemos de frente, seu semblante de desesperança, o vemos como a figura que observa, cada vez mais, impassível diante do que o diretor considera uma injustiça contra o ser humano.

O tom intimista da direção de Brizé, com a câmera sempre na mão, e cortes secos na narrativa, tornam o conteúdo episódico e universal. Mas, não precisamos lembrar, este é um exemplo de filme maniqueísta que quer provar seu ponto. E o faz muito bem. Não quer dizer que esteja certo, mas apenas que argumenta bem. Um filme que passa rápido, que nunca entedia. A não ser, é claro, que você esteja procurando um conteúdo mais pipoca.


“La loi du marché” (Fra, 2015), escrito por Stéphane Brizé, Olivier Gorce, dirigido por Stéphane Brizé, com Vincent Lindon, Karine de Mirbeck, Matthieu Schaller, Yves Ory, Xavier Mathieu


Trailer – O Valor de um Homem

1 Comment

  1. Pensa num filme angustiante?É exatamente assim que me senti assistindo.Todas aquelas humilhacoes pelas quais ele passa nos processos seletivos,a angústia de não conseguir trabalhar,é tudo muito real.Quem já passou por período de desemprego certamente irá se identificar.

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