#001 | O Último Capítulo | Terror da Netflix surpreende ao ir na contra-mão da mesmice


Todo mundo adora filmes sobre fantasmas. E todo fã do gênero vai gostar mais ainda se o O Último Capítulo, novo filme inédito lançado direto na Netflix se torne o primeiro de muitos. Já que, assim como já acontece em tudo original do serviço de Streaming, o que não falta é uma qualidade marcante da produção.

Nesse caso, o destaque fica entre duas pilastras que fazem de O Último Capítulo uma passagem obrigatória para os fãs: um visual cuidadoso e um roteiro rebuscado e impressionantemente belo. Um filme que bebe na fonte dos clássicos onde fantasmas não pulam na frente da tela, mas sim passeiam pelos corredores escuros, rangendo o assoalho em busca de um caminho que o tire daquela repetição de dor e sofrimento.

Sim, o filme escrito e dirigido por Oz Perkins foge completamente dos clichês da moda, do susto fácil e aposta no clima, deixando que a imaginação do espectador seja o maior dos fantasmas. Perkins brinca com o medo universal de encontrar algo que não estava “ali” antes ou que não era para estar. Joga com o barulho que não deveria soar. Um esforço de sempre deixar na tela aquele espaço bem conhecido onde (quem sabe!) vulto passando ou aparição surjam, mas ao contrário, prefer esmagar seu espectador com a expectativa desse momento acontecer (ainda que nem precise).

Um filme de fantasma habilidoso e pesado, quase um terror psicológico sobre uma enfermeira, Lily (Ruth Wilson), que passa a cuidar de uma escritora de terror famosa, Iris Blum (a veterana Paul Prentiss) mas que já está no final da vida, entrevada na cama e delirante. Mas como a própria protagonista afirma, em um casa onde aconteceu um assassinato, os vivos não podem comprá-la, mas sim apenas pegá-la emprestada dos mortos.

No caso esse crime se refere ao casal que construiu a casa no começo do século XX, uma história que, na verdade, se mistura com a trama do livro mais famosa da escritora, o que ainda parece acabar se confundindo com a realidade da enfermeira, que começa a ler o livro e a descobrir que as coincidências entre as histórias talvez sejam ainda mais profundas, ao mesmo tempo que esse passado parece volta para assombra-la na figura de Polly (Lucy Boiton).

 

Uma história que, por si só, é bem simples e objetiva, mas que ganha uma camada especial com uma narração rebuscada e poética que é um verdadeiro presente. Ainda que acontecendo nos dias atuais, o texto quase puxa a história para um período gótico do terror, onde o horror vivia muito mais na cabeça de seus protagonistas e em suas impressões do que em alguma aparição.

A fantasma Polly “morre como nasceu, usando nada a não ser sangue”, assim como lembra que “mesmo as coisas sendo belas, são apodrecidas”, um cuidado quase plástico nas palavras que parecem tomar o filme com esse clima fantasmagórico.

E esse texto barroco completa perfeitamente bem o ritmo lento e a trilha sonora que não vai embora e parece arranhar seu cérebro com suas unhas. Uma trilha que culmina junto de um derradeiro grito mudo que arrepia o espectador. Um grito de desespero, de terror. De morte. Um caminho aterrador que resume a vida da personagem. E olhar para isso é de gelar os ossos.

O Último Capítulo é então essa mistura de terror com poesia que conta a história dessas três mulheres, em três momentos diferentes da história dessa casa, todas entrelaçadas pela morte, pela solidão e que vagarão por ela pela eternidade enquanto tentam entender a violência física e psicológica que sofreram. Enquanto tentam entender o final de suas histórias, seus capítulos finais. Mas mais do que isso, a impressão de que se a Netflix mantiver esse cuidado dentro do gênero, não é nada demais esperar um futuro brilhante.

Confira os filmes da coluna 666 Filmes de Terror


“I Am the Pretty Thing That Lives in the House” (EUA/Can, 2016), escrito e dirigido por Oz Perkins, com Ruth Wilson, Paula Prentiss, Lucy Boynton, Erin Boyes e Bob Balaban


Trailer – O Último Capítulo

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