O Turista

É inegável que, não só em termos de marketing, o Oscar é um dos, senão o, maior prêmio do cinema mundial, do mesmo modo que não se pode, menos ainda, diminuir quem quer que tenha levado aquela estatueta para casa. Entre críticas e virtudes, lobbies e merecimentos os prêmios da Academia são sim um belo modo de homenagear um trabalho de um profissional do cinema, por isso que, quando um filme junta tanta gente agraciada ou indicada para esses prêmios em um filme só, é impossível não ter esperanças de um resultado muito melhor que “O Turista” consegue alcançar.

A começar pelo diretor Florian Henckel von Donnersmark, ganhador do prêmio de melhor filme estrangeiro por seu A Vida dos Outros (de 2006), seguindo pelos roteiristas Christopher McQuarrie e Jullian Fellows (que levaram seus prêmios, respectivamente, por “Os Suspeitos” e “Assassinato em Gosford Park”), e indo para a dupla de protagonistas Johnny Depp (com três indicações) e Angelina Jolie (com uma estatueta e uma indicação). Uma verdadeira mistura dourada que desanda completamente.

Na trama, uma refilmagem do francês Anthony Zimmer – A Caçada (que pode ser encontrado em qualquer locadora e acaba sendo uma opção muito mais acertada), Angelina Jolie é uma mulher misteriosa que, perseguida pela Interpol, entra em um trem e escolhe o personagem de Depp, um turista americano qualquer, para ludibriar seus perseguidores, que na verdade estão atrás de seu namorado procurado por sonegação de impostos e roubo, mas que, depois de uma cirurgia plástica, mudou totalmente o rosto.

A situação é empurrada justamente pela confusão em torno desse cara normal sendo confundido com esse bandido, não só pela polícia, mas também pelo mafioso russo que foi lesado. O problema, é que essa trama hitchcockiana (não se enganem, nem o original consegue seguir muito essa referência clara) não parece saber aonde quer chegar, nem que tom quer ter. Durante todo tempo, é difícil saber se o diretor alemão está optando por um thriller de espionagem, por um suspense, por uma quase comédia romântica de aventura (ou até por uma espécie de farsa dado à trilha sonora irregular e descontextualizada).

A impressão que fica é que, com a óbvia preocupação de mirar um público pasteurizado pela produção hollywoodiana, “O Turista” resolve renegar suas raízes obviamente européias, não só pelo original, mas por se passar totalmente no Velho Mundo, na charmosa Veneza, e contar com personagens dubiamente europeu (que viveriam naquela região cinza entre o mocinho e o bandido de Hollywood), uma profundidade que o cinema americano na consegue suportar. E não o faz aqui, estragando boa parte do filme com isso.

Angelina Jolie é deslumbrante, ela sabe disso (e a câmera de Donnersmark também) e toma a tela do cinema com seu brilho cada vez que dá as caras, entretanto, ao seu lado Johnny Depp faz o mesmo, o que joga seu personagem totalmente no lixo, e junto à credibilidade da trama. Nela, o pronto principal, que seria justamente essa dinâmica paradoxal entre a mulher fina e calculista e o cara mediano e sem graça, cai por terra quando Depp, totalmente fora de controle, opta por um personagem excêntrico e quase exagerado (aqui talvez entrasse uma mão mais forte do diretor que parece não ter entendido a idéia central da trama).

A abertura para esse equívoco narrativo, que impede o filme de chegar mais longe (e fica mais claro ainda em comparação ao original, com a dupla Sophie Marceu e Yvan Attal fazendo um trabalho extremamente mais coerente), parece acontecer justamente por esse desespero do roteiro de alcançar os números das bilheterias, dando a oportunidade de O Turista apostar não no protagonista normal que é pego no meio de uma confusão, e acaba se tornando um herói (à seu modo) saído de algum livro de espionagem, mas sim na possibilidade da leitura de um homem que parece à todo momento estar no controle da situação. É impossível torcer pelo protagonista quando ele parece esperto demais para aquilo tudo e o principal vilão faz questão de exigir que seus capangas “não o matem” (o que não o deixa passar por nenhum perigo real).

Nesse momento da trama, quando nada mais parece ter salvação, o roteiro de “O Turista” então resolve se jogar de cabeça em um filme de aventura, com tiros e perseguições, que até são bem realizada (se aproveitando bem da geografia da cidade), mas impedem que um suspense maior tome forma. E pior ainda, o trio de roteiristas não parece perceber que a mola mestra do filme é o tal turista (Depp) e não os outros personagens, permitindo, por vezes, que sua influência na trama fique em segundo plano. Deixando-o, no final das contas, tomar poucas decisões e impedindo completamente que a grande reviravolta final se torne coerente, já que, em nenhum momento, ninguém no filme pareça pensar nela como uma surpresa, mas sim como um único rumo para todo aquele caminho (durante todo tempo Donnersmark parece afoito para dar dicas sobre o seu fim, de modo cru e sem emoção).

No fim das contas, O Turista acaba resultando em um filme mediano demais para o tamanho que poderia alcançar, não que perca pela expectativa, mas sim por deixar claro que opta por encher a sala de cinema de espectadores a encher a tela com um suspense que fizesse mais sentido.


The Tourist (EUA/Fra, 2009), escrito por Florian Henckel von Donnersmark,Christopher McQuarrie e Jullian Fellows, dirigido porFlorian Henckel von Donnersmark, com Johnny Depp, Angelina Jolie, Paul Bettany e Steven Berkoff.