O Tremor | Onde ele está?


Onde está O Tremor que destruiu um vilarejo perdido no meio da Índia? Este é o tema deste filme minimalista, de pouco mais de uma hora de duração, que acompanha um fotojornalista em busca do epicentro de sua profissão: registrar o desastre alheio. Quando mais catastrófico melhor.

Ouço ecos de O Abutre, aquele filme em que Jake Gyllenhaal busca por desastres na cidade grande que se traduzem por mais e mais violência. Em O Tremor a violência é remota e distante, quase sugerida, mas nunca vista. Ela está na busca e nas poucas palavras do fotógrafo, que deseja a confirmação de que uma vila inteira foi destruída por um terremoto. Sua grande vitória será chegar primeiro que seus colegas.

Balaji Vembu Chelli estreia na direção de longas com este trabalho simples que não evoca muitas questões direto na tela, mas nos faz pensar sobre elas. A ação ocorre em nossa mente. O filme nos dá tempo e combustível para confabularmos sobre as fraquezas de caráter eminentes na natureza humana, que se revela, por exemplo, quando diminuímos a velocidade do carro para ver um acidente na estrada, ou nos apinhamos na multidão de curiosos observando mais uma consequência nefasta (e frequentemente violenta) do caos urbano.

É do não-movimento que esses pensamentos nos chegam, em uma história visualmente repetitiva e que nos oferece muitas estradas sinuosas em primeira pessoa e o ponto de vista de quem nunca consegue encontrar seu destino e está cada vez mais perdido em suas esperanças mórbidas. O personagem do filme, interpretado de maneira automática por Rajeev Anand, não é um vilão. Ele representa o que nós, como espécie, mais lamentamos: o saber da desgraça do outro apenas por saber. Afinal de contas, o que faremos a respeito de uma notícia no jornal sobre dezenas de mortos do outro lado do mundo?

Aos poucos chega ao espectador a sensação que o filme quer trazer: da irrelevância dessas notícias-catástrofe; mais da notícia, menos da catástrofe. Até porque desastres naturais que matam grupos de humanos ocorrem desde o início dos tempos, e não havia telejornais na época para fotografar tudo (vamos ignorar as pinturas rupestres em consideração ao filme).

O Tremor é um momento fugaz em que nos escondemos da rotina frenética para nos observar e refletir: até que ponto acompanhar notícias ruins nos torna humanos melhores?


“The Tremor” (Ind, 2020), escrito e dirigido por Balaji Vembu Chelli, com Rajeev Anand, Semmalar Annam e Vengadessin Eazhumalai.


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