O Século da Fumaça | O vício de uma geração

*o filme faz parte da cobertura da 43° Mostra Internacional de Cinema de São Paulo


O Século da Fumaça parece uma reprise. Eu me lembro de ter visto um filme muito semelhante em outras mostras há um bom tempo, mas a data de produção de 2018 aponta para sua triste atualidade.

Se trata de um documentário sobre as condições dos habitantes do interior de Laos, ainda produtor e exportador de Ópio, uma droga altamente viciante e que geralmente consome rapidamente a vida dos viciados. Nessa região acompanhamos uma família e seus vizinhos. A maioria dos homens dessa geração estão no vício e as mulheres são responsáveis por trabalhar no campo, além de dividir a criação dos filhos.

O “pai de família” explica que parar de fumar ópio envolve fortes dores no corpo e a incapacidade de se levantar. Ele já está viciado há um ano e espera que o governo proíba a produção para que ele seja forçado a parar, não havendo mais ópio por perto. De acordo com ele seria a única maneira de ele conseguir se salvar, pois sua força de vontade é insuficiente (ele coloca a culpa na genética da família). E ele se sente grato por ter casado com uma mulher forte que possa trabalhar no campo.

O Século da Fumaça se chama assim porque este é um ciclo de 100 anos que ainda não acabou. Por mais que a produção de ópio seja coibida no mundo ainda há mercado, e as consequências podem ser vistas em primeira pessoa neste filme. A morte do primogênito na família é motivo de muita dor e sofrimento dos pais, o que os levou a ingerir também da substância. Simples, mas sábios pela idade, eles entendem o básico que seu filho vivo precisa: fazer qualquer coisa que envolva sair do vício. Sua mulher já pensou em se matar, mas precisar cuidar dos filhos é um sentimento maior. Este não é um filme fácil pelos fatos que estão aí.

O filme é auto-contemplativo. Não há uma narrativa, serve mais como denúncia e fazer pensar. Há vários momentos parados como reflexo do ritmo de vida do local, cujo clima tropical faz variar o tempo religiosamente com a chuva do final do dia. E há 100 anos se explica o vício como a maldição de uma princesa muito bonita cuja flor que nasce do seu túmulo hipnotiza quem a inalar. É um filme sobre vidas em suspensão, onde o sofrimento se resolve inalando a fuga da realidade.


“Century of Smoke” (Bel/Fra, 2019), escrito e dirigido por Nicolas Graux, com Pyawqdzei Dzanrbo, Lome Armyovq e Byevpyawq Dzanrbo.



Trailer do Filme – O Século da Fumaça

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