O Que Ficou Para Trás | Um respiro dentro das mesmices do gênero


O terror sempre tem espaço para coisas novas, O Que Ficou Para Trás, novo filme da Netflix consegue fazer exatamente isso, e nem precisa se esforçar muito para isso, apenas não aposta nos velhos clichês e repetições, escolhe novos e se torna uma ótima pedida dentro do gênero.

A ideia é simples e acompanha um casal de refugiados que tenta começar uma nova vida na Inglaterra, onde acabam ganhando uma casa. Mas como estamos falando de um filme de terror, logo chega a noite e com ela um monte de barulhos e coisas estranhas que passam a ser uma provação para que o casal permaneça ali.

Parece uma trama simples de casa mal-assombrada, e é. O roteiro de Felicity Evans, Toby Venables e Remi Weekes tem até pretensões maiores, mas nunca faz com que isso seja o cerne de sua história. O foco é o terror mesmo, os sustos, as aparições e um visual bem interessante e divertido, a diferença é a vontade de colocar isso em um cenário ligado ao folclore africano e uma vontade de deixar para trás uma mensagem importante.

A trama ainda tem uma reviravolta inteligente e que deixa o assunto não só assustador, como complexo e tridimensional. Não que seja um ponto importante e que precise ser discutido em termos de spoiler, mas apenas uma lembrança de que filmes de terror não precisam ter a mesma estrutura e podem sim, sacrificar um pouco seus personagens para o bem das suas histórias.

Não uma morte em si, ou um sacrifício, como o gênero adora, mas sim uma intenção de costurar essa história com dois personagens que não surgem de qualquer lugar só para morarem em uma casa nova, mas sim que já encararam um terror antes e agora precisarão encarar um desafio ainda mais incompreensível.

O “monstro da vez” é um Apeth, uma espécie de bruxo que parece os ter perseguido desde a África e agora quer um sacrifício para compensar alguns erros do passado. Nada de muito criativo, mas o roteiro inteligente e o trabalho de Remi Weekes fazem tudo funcionar perfeitamente bem. Sua câmera é firme, os sustos são eficientes e os momentos de tensão são realmente poderosos. Fora a possibilidade do gênero de lidar com uma cultura diferente e que que soará nova para os espectadores padrões. E ter novidade é sempre algo imperdível.

O resto da força do filme vem ainda da dupla de protagonistas, os incríveis Sope Dirisu e Wunmi Mosaka. O trabalho de ambos é impecável, sem medo de encarar a câmera e construindo personagens que evoluem dentro daquela jornada. Aquelas duas pessoas do começo se transformam, encaram seus medos e enfrentam esses inimigos, cada um a seu jeito, mas com essa impressão de que estão unidos por essa ameaça. Afinal, querem só estar em casa, desde que isso signifique coisas diferentes para eles.

Mas sobre tudo isso, O Que Ficou Para Trás tem uma responsabilidade de mostrar, não só a violência de seus passados, mas discutir um pouco cada fantasma refugiado, cada alma que não consegue cumprir a jornada. E cada uma delas estará sempre junta com aqueles que continuam vivos para que esses carreguem para sempre seus legados.

Um bom filme de terror, cheio de sustos, com um elenco incrível, um diretor habilidoso e uma mensagem cheia de responsabilidade. Tudo isso sem perder a segurança de ser uma espécie de “Afro-Amityville” e que merece toda atenção dos fãs do gênero.


“His House” (UK, 2020); escrito por Remi Weekes, Toby Venebles e Felicity Evans; dirigido por Remi Weekes; com Sope Dirisu, Wunmi Mosaku, Malaika Wakoli-Abigaba, Javier Botet e Matt Smith


Trailer do Filme – O Que Ficou Para Trás