O Quarto dos Esquecidos | Terror caminha bem pelos clichês e surpreende

O Quarto dos Esquecidos Filme

O Quarto dos Esquecidos pega todo aquele nosso preconceito (no bom sentido) de “filmes de famílias problemáticas que se mudam para casas no campo” (um sub-gênero do terror cada vez mais usado) e transforma em um drama envolvente, ou no mínimo quase isso. E assim como o excelente Babadook, ele utiliza metáforas para explorar esse ser fora de controle que vive em cada um de nós.

A história é simples, mas vai se desdobrando conforme acompanhamos os primeiros dias do casal urbano e seu filho pequeno que se mudam para o inverso ao que estão acostumados: uma cidade pequena onde todos se conhecem (queiram ou não). E de brinde, pra variar, eles levam o passado tenebroso da outra família que morava na antiga e isolada casa para onde vão.

A cidadezinha mantém sua pequena coleção de personagens caricatos, como a mercearia da fofoqueira da cidade, o conserta-tudo jovem bem-apessoado e até uma antiquária baixinha que subverte seu próprio papel estereotipado de conhecedora dos mistérios do passado daquela região. No fundo, o filme pisca para nós quando, depois de esboçar uma teoria sobrenatural a respeito do passado da mansão, a velhinha acaba concluindo com ela mesma, de maneira anticlimática, mas realista: “acho que andei assistindo Poltergeist demais”.

Uma pequena verdade. Afinal de contas, ninguém mais aguenta a velha e batida história dos fantasmas com mortes mal-resolvidas ou procurando vingança além-túmulo, e quando assistimos a algo parecido nos vem à mente esses mesmos surrados clichês. Com o passar do tempo, esses filmes e seus horrendos moradores lendários foram aos poucos se repetindo tanto que não faz mais muita diferença se agora é um senhor sisudo de olhar penetrante e sua mulher submissa (mais sobre isso depois), ou o doberman raivoso caçador de criancinhas. Porém, todos esses elementos – assim como os espelhos que escondem segredos, fotos antigas com um sótão desconhecido e armários cheios de morcegos – são usados como souvenires de filmes anteriores, compondo mais um mosaico desse universo do que algo necessariamente original.

Mas não exatamente com os mesmos objetivos. Eles se misturam com o drama da mãe, Dana (Kate Beckinsale), que passou pelo horrível trauma de ter uma filha que não chegou a completar um ano de vida. Sentimos todo o peso na expressão de Dana, que tenta tomar as rédeas de sua vida novamente ao reformar a casa para onde se mudam. Seu primeiro desafio é encarar o passado, não só seu, mas de todas as mulheres, que se antes submissas, hoje são as trabalhadoras da casa. Enquanto ela é arquiteta, forte e dona de seu próprio destino, David, seu marido, joga XBox. Se isso é algo relativamente normal de se ver em uma cidade como Nova Iorque, em uma cidadezinha de menos de 1000 habitantes esse passado machista ainda é a realidade predominante.

O Quarto dos Esquecidos Crítica

Porém, quando o trauma de Dana se confunde com as ações terríveis do antigo patriarca daquela casa, há uma fascinante inversão de gêneros e comparação de caráter que vai tomando forma conforme vamos aos poucos compreendendo o que aconteceu com ambas as famílias. A narrativa eficiente do diretor D.J. Caruso fornece gratas surpresas que nos mantêm imersos na experiência, sendo a melhor delas a maneira sempre sutil de fazer Dana voltar ao seu passado traumático (e entre várias cenas a minha preferida é quando ela vai pegar seu remédio no box do banheiro, e quando vemos novamente seu reflexo no espelho ele é frio e distante, pois estamos vendo uma Dana do passado, em um outro banheiro, com os mesmos remédios, como pode observar a mesma Dana do presente através do espelho).

Aliás, essa diferença entre o passado azul, quase monocromático, de Dana, é uma das virtudes da fotografia, que no presente soa mais quente, embora com as cores drenadas, sugerindo uma possibilidade de melhora, mas sem a esperança luminosa. Não há sol aparente que ilumine as paredes daquela casa, cercada de sombras de árvores, uma estufa quebrada (morte) e um túmulo escondido (morte novamente). Também auxilia uma direção de arte afiada no terror, onde um candelabro perigosamente reside no meio de uma escada em caracol, e embora o filme não seja em 3D, acaba sugerindo um certo desequilíbrio ao mostrá-las sempre em um quadro torto e focado no ameaçador candelabro.

O único aspecto técnico que deixa a desejar é a trilha sonora. Inconstante e muitas vezes inapropriada, se torna incômoda nos minutos mais tensos do longa. Uma gafe. Que até harmoniza com o roteiro incompleto de D.J. Caruso e Wentworth Miller, que joga amigos saídos do nada em um evento na nova casa e uma Dana bêbada (igualmente surgida do nada) e uma edição confusa (nesse momento) que quase estragam o terceiro ato.

Ainda assim, O Quarto dos Esquecidos, apesar de não ser perfeito em sua história e usar clichês já batidos desta década de terror, consegue se desvencilhar da maioria das armadilhas, como forçar sustos com o uso do som (faz isso apenas pontualmente) ou apelar desnecessariamente para a exposição. No final, acaba comprovando novamente que não é preciso de muito sobrenatural para assustar, quando o mais assustador reside dentro das próprias pessoas.


“The Disappointments Room” (USA, 2016), escrito por D.J. Caruso e Wentworth Miller, dirigido por D.J. Caruso, com Lucas Till, Kate Beckinsale, Gerald McRaney, Michael Landes, Michaela Conlin


Trailer – O Quarto dos Esquecidos

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