O Preço do Amanhã

 

O Preço do Amanhã Filme

Para começo de conversa, de boas intenções, O Preço do Amanhã e o inferno estão cheios, e nem por isso, talvez, passar por ele seja a melhor das experiências (em ambos os casos). Diante de uma premissa interessante, o novo filme de Andrew Niccol então, só toma o caminho errado.

Nele, em um futuro (distante ou não) todos habitantes do Planeta Terra sofreram uma espécie de mudança genética que lhes permite crescer até os 25 anos depois se manter com essa aparência física pelo resto da vida, ainda que esse tempo que sobre seja determinado por um relógio integrado ao seu braço esquerdo que serve ainda como moeda de troca. Como se, literalmente, tempo fosse dinheiro.

De modo acertado e coerente, Niccol (que também escreveu o roteiro), conta então a história desse rapaz, vivido por Justin Timberlake (mais e mais à vontade em cada filme, se permitindo até uma atuação do piloto-automático), que mora nessa espécie de parte baixa da cidade, onde ninguém tem “tempo” (e não reclame dos trocadilhos, já que o filme parece se esforçar para usar todos), precisando trabalhar pelo próximo dia de vida. E é em um desses barzinhos de periferia que ele acaba esbarrando com um ricaço que lhe dá um século antes de se matar, o que não lhe impede de ter sua mãe morrendo em seus braços e jurar vingança contra essa (alta) sociedade.

Talvez até de modo escapista, já que só resvala nos verdadeiros problemas dessa sociedade dividida em castas onde os ricos “consomem” a vida dos pobres, O Preço do Amanhã falha então, de modo magistral, ao ficar, durante quase metade de sua trama, ensaiando esse filme de ação, o que talvez acabe nem casando muito bem com a ideia inicial. Bem verdade, O Preço do Amanhãcomeça muito mais a fim de repetir a fórmula do primeiro filme de Niccol (o interessante Gattaca) do que se tornar uma fuga à La A Ilha.

Quando O Preço do Amanhã se decide em ser um filme de ação, decepciona completamente quem entrou no cinema à procura dessa adrenalina e chateia quem estava se divertido com esse lado ficção científica marxista. E pior, enquanto apóia sua trama nesse segundo lado não perde a mão e funciona perfeitamente, quando resolve mudar o tom, acaba mostrando uma certa dificuldade visual e narrativa em organizar essas sequências de ação.

Além de não empolgarem nem um momento sequer, ainda se mostram pontuais demais dentro da trama, o que deixa O Preço do Amanhã monótono, já que não deixa espaço, depois que se inicia essa “corrida contra o tempo”, para que a trama continue se desenvolvendo, mas apenas se arrastando de um lugar para outro.

O estranho disso é que Niccol já se mostrou, até mais de uma vez, que é capaz de se manter nesse tipo de trama onde o suspense e o desenvolvimento de seus personagens, empurram o filme até o final, como fez em O Senhor das Armas (sem citar Gattaca, mais uma vez).

O Preço do Amanhã Filme

Mesmo como o perigo de desgastar mais ainda todo e qualquer trocadilho com a relação tempo/dinheiro, caso rumasse para esse suspense pessimista, O Preço do Amanhã, definitivamente perderia os espectadores à procura de adrenalina, mas ganharia os mesmo fãs que até hoje citam Gattaca como uma de suas ficções preferidas.

Mas, ao escolher andar por essa corda bamba intelectual/ação acaba tornando todo o lado divertido desse futuro em uma pseudo-babaquice que está ali para preencher o espaço entre as sequências de ação. Mais ainda, acaba se mostrando apressado e desajeitado (preguiçoso até) para resolver a maioria dos conflitos do filme, como o amigo morto por beber e a facilidade com que eles resolvem o problema do pai da protagonista (Amanda Seyfried, mais uma vez inodora, incolor e insípida), tudo isso, já que precisam voltar a “dar no pé” para mais uma sequência de ação.

Pior ainda, diante de uma direção de arte tremendamente interessante e cheia de personalidade Niccol só permite que seu O Preço do Amanhã seja, no final das contas, uma espécie de Bonnie e Clyde (“roubando o que já foi roubado”) fantasiado de Alphaville (os prédios frios, os carros e todo esse toque retro), mas dando um ponta pé em toda essa sutileza e se deixando embarcar em um filme de ação monótono.


O Preço do AmanhãIn Time (EUA, 2011), escrito e dirigido por Andrew Niccol com Cillian Murphy, Justin Timberlake, Amanda Seyfried, Johnny Galecki, Olivia Wilde e Vincent Kartheiser