O Ponto Vermelho |Seria melhor que tivesse logo apertado o gatilho


A premissa de O Ponto Vermelho é incrível. Um filme que promete ser de terror e coloca um casal em meio a férias no interior cheio de neve e montanhas, até um daqueles pontos de mira laser surgir na parede da barraca onde estão tentando fugir do frio. A tensão da ideia faz a sinopse chamar a atenção, mas o que vem antes e depois desse momento é um desperdício enorme.

O filme é uma produção sueca bancada pela Netflix e com cara de cota de terror na “série B” do catálogo do serviço de streaming. É lógico que é preciso ter as tais “uma grande estreia por semana”, mas sem esse pessoal “longe do mainstream”, não existe volume de filmes que dê conta. Portanto, a ideia é “atacar” um público específico e que busca a diversão (e a diversificação) no gênero.

Esse pessoal quer um filme de terror, O Ponto Vermelho até entrega isso, mas de um jeito tão estabanado e forçado que será impossível não se irritar com ele. Logo de cara o roteiro escrito pelo próprio diretor, Alain Darborg, com Per Dickson, parece correr demais na construção do relacionamento desse casal, principalmente porque vão do céu ao inferno em um corte. É lógico que essa quebra serve para empurrar a trama e volta para ser discutida no final com uma surpresa, mas é improvável que alguém se aproxime dos dois só por esse começo.

Eis que os dois se metem quase no meio de um “terror de caipira”, entrando em conflito com alguns moradores locais e ainda deixando essa impressão de Amargo Pesadelo, mas é só eles estarem sob a mira misteriosa de uma arma que fará você se importar com eles. Mas isso dura tão pouco, que minutos depois você já está julgando as péssimas decisões dos dois.

Pior ainda, a direção de Alain Darborg é tão capenga que em dois momentos importante dessa ação toda, o espectador nem verá aquilo acontecer. Nem um tiro que você vai demorar para entender se pegou ou não, muito menos uma caída em um lago gelado, que acontece completamente “offscreen” e beira o ridículo estético e narrativo.

Mas talvez O Ponto Vermelho seja um daqueles filmes que nasce de trás para a frente. A situação da mira laser é uma ideia incrível, mas é a reviravolta que abre o terceiro ato que deve ter motivado a produção. Ela realmente existe, vai surpreender e virará a trama de pernas para o ar, mas talvez um pouco demais.

Por um segundo, O Ponto Vermelho se torna quase um daqueles terrores de tortura com gente machucada lentamente e com uma pitada de sadismo, mas isso acontece em um momento onde o filme resolveu fazer com que você, não só não torcesse para a dupla de protagonistas, como ainda não se aproxima da motivação do vilão.

Os dois protagonistas são monstruosos demais, a reviravolta do roteiro coloca eles em um lugar de julgamento pesado demais. Já o vilão, mesmo lidando com uma dor indescritível, embarca em uma vingança complexa demais e com requintes de crueldade suficientes para qualquer um colocar em dúvida se não está indo longe demais.

E tudo isso sem nenhum ponto vermelho de mira laser, essa ideia dura apenas uma sequência e depois é completamente esquecida. Uma premissa que é realmente boa, mas é tão deixada de lado junto com o suspense disso, que é impossível não acabar a nova produção sueca da Netflix com a impressão de que se o vilão tivesse logo apertado o gatilho, teria salvado o espectador de uma grande chatice que vem depois disso.


“Red Dot” (Sue, 2021); escrito por Alain Darborg e Per Dickson; dirigido por Alain Darborg; com Nanna Blondell, Anastasios Soulis, Johannes Kuhnke, Thomas Hanzon, Kalled Mustonen, Tomas Bergstrom e Anna Azcárete


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