O Palhaço

A cada dia e produção que passa, Selton Mello se mostra mais e mais um apaixonado pelo cinema e, talvez, em O Palhaço ele demonstre de onde vem essa paixão.

Não que seu segundo filme na direção seja autobiográfico ou coisa parecida (nem seu primeiro, Feliz Natal o é, esse, um exercício narrativo impressionante, mas com um lado hermético e ousado que o impediu de se aproximar do grande público), mas é diante de O Palhaço que se percebe esse amor pelo lirismo do circo, dos personagens e do como a mudança de foco, saindo do picadeiro, mostra muito mais que simples sorrisos.

Dito disso, O Palhaço talvez até pareça algum drama pretensioso sobre esse palhaço (vivido pelo próprio Mello) que acaba tendo que sair à procura de sua verdadeira identidade diante de uma espécie de crise existencial, mas não é. Na verdade, O Palhaço é esse filme sensível e poético, que até se move graças a essa história, mas parece muito mais preocupado e ser um mosaico sobre o brilho e a alegria que só o circo consegue dar a sua platéia.

E com esse material em mãos, Mello é hábil como se parecesse ter uma enorme experiência por trás das câmeras, daquelas que não deixam nada passar, aproveitando o melhor de cada ator, de cada linha de diálogo e de cada situação, pintando tudo isso sobre uma tela de composições sensíveis e precisas. A todo o momento, Mello enxerga esse circo mambembe circulando pelo interior de São Paulo e Minas Gerais como um fio de esperança (não à toa o nome do circo) que faz os trabalhadores de uma lavoura qualquer pararem tudo para, como diz a canção, verem o circo passar.

O Palhaço então, enquanto olha para esse protagonista esmagado por uma tristeza que não o deixa sorrir fora do picadeiro, aproveita para contar essas pequenas histórias deliciosas dessa trupe em cada cidadezinha que aporta. Uma possibilidade riquíssima de desvendar esses personagens apaixonantes, cada um com sua história. Seu passado. É fácil acabar de ver O Palhaço e se sentir emocionado e orgulhoso por poder fazer parte daquela família, e isso, esse sentimento de imersão, é para poucas produções.

Mello consegue isso ao compor esse personagem de dentro para fora, desse filho do dono do circo, que, aparentemente, não tem lá a melhor das relações com o pai (Paulo José em um trabalho impressionantemente sensível), mas que, sob aquela lona, todas os dias, se transformam nos palhaços Puro Sangue e Pangaré. Sobra para ele, administrar o circo, com todas suas atrações e problemas, uma responsabilidade que passa a ser mais pesada do que ele esperava conseguir carregar.

E e essa distância entre essas duas facetas do protagonista, um espaço que só vai sendo preenchido pouco a pouco, que move O Palhaço, já que Benjamim (Mello), na verdade não sabe quem realmente é. A beleza dessa ironia toda é, justamente, tratar desse assunto de modo quase simbólico, mas sem se tornar pedante, já que Benjamim, literalmente, precisa ir até a “cidade grande” para fazer sua carteira de identidade, ao mesmo tempo em que compra seu ventilador e coloca em prova se é essa vida mesmo que ele quer para si.

O Palhaço então trata um pouco da tristeza dolorida de ter que deixar uma vida para trás e ir em direção a uma nova, menos brilhante, mas que sempre, em qualquer hipótese, ainda deixa espaço para que tudo volte a ser o que era. Como se lembrasse que se tudo está ruim, é por que ainda não terminou e lá no final tudo vai dar certo. O sorriso da filha de um dos artistas, aquela mesmo que espiava por baixo das arquibancadas, pode até se esvair ao perceber que o mundo fora do picadeiro não é feliz e alegre, nem seus problemas podem se resolver como um passe de mágica, mas, ainda assim, tudo é carregado ao final feliz por essa esperança.

Talvez Mello faça agora um mea culpa com o pessimismo de seu filme anterior, mostrando que, no fim de tudo, mesmo diante de toda melancolia, tudo não precisa dar errado, por isso, não economiza em olhos lacrimejados de emoção e em um sentimento profundo de estar fazendo um filme que toca o coração de todos.

Mas, obviamente, isso tudo não funcionaria sem um elenco tremendamente interessante, com Mello e Paulo José na ponta de tudo com trabalhos dignos de palmas. Mello, mais seguro do que nunca, cria com tremenda habilidade esses dois lados de uma mesma moeda, e é impressionante como, em nenhum deles, com e sem a maquiagem, esse oposto desaparece. O palhaço conquista a todos com o sorriso nos lábios sob os olhares tristes, assim como o homem triste sem saber o que fazer não consegue perder a frescor lúdico do palhaço. Porém, em nenhum momento o filme coloca em prova a verdadeira identidade do protagonista, nem Mello o faz, mas nem por isso impede-o de procurá-la.

Ao seu lado Paulo José, mesmo doente há vários anos, sai dessa realidade frágil e compõe esse personagem profundo e sensível, que serve de âncora para o filho ao mesmo tempo em que parece se esconder em um canto de trás das cortinas do picadeiro antes de entrar, como se demonstrasse o quanto talvez seja mesmo difícil encontrar graça onde você é quem é responsável pelos risos. Desse modo, José faz um daqueles trabalhos para nunca serem esquecidos, tamanho controle que ele tem por cada olhar e movimento de seu personagem, que, assim como o filho, se enfraquece fora do picadeiro, mas não deixa a tristeza atingi-lo, nem quando toma a decisão de partir com sua vida ao invés de viver em uma mentira que lhe fazia se sentir melhor.

Todas essas nuances sobram para o Selton Mello diretor, que não perde nenhum desses olhares, gestos e emoções, tudo está estampado em seu filme, assim como tem a força de perceber o peso de um punhado de participações especiais. É incrível como Mello retira tamanha sensibilidade dos olhos de dois atores acostumados a superficialidade da TV como Jackson Antunes e Fabiana Karla, ao mesmo tempo em que não desperdiça um só segundo das impagáveis participações de Jorge Loredo e Moacyr Franco. O segundo, sem sombra de dúvida, criando o momento mais divertido e marcante do filme no papel do Delegado Justo, no qual Mello percebe o potencial e arrisca a simplicidade explícita do momento com uma composição objetiva e uma montagem seca, mas que contrapõe de modo divertido toda situação dos dois lados.

E diante de toda essa vontade de fazer cinema, O Palhaço ainda se permite ser completamente divertido, com um humor que pode até ser acusado de inocente por aqueles que não conseguirem relaxar o suficiente para se emocionarem com ele, mas que mostra, sobre tudo, o quanto se pode ser sensível, contundente, emocionante, fazer todos se apaixonarem por seus personagens e ainda por cima contar uma história.

PS: E se você ainda não conseguir relacionar a paixão de Selton Mello por cinema com o circo, é que talvez você tenha esquecido como reconhecer o quanto é gostoso e brilhante o sorriso de uma criança diante desse palco de sonhos, que é o circo (ou o cinema?).


idem (Bra, 2011), escrito por Selton Mello e Macelo Vindicatto, dirigido por Selton Mello com Paulo José, Selton Mello, Larissa Manoela, Cadú Fávero, Thogun, Moacyr Franco, Fabiana Karla, Ferrrugem, Jorge Loredo , Jackson Antunes e Tonico Pereira


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