O Pacto

Você pode até não saber, mas há muitos séculos, na Alemanha, um tal de Fausto já vendia sua alma para o Diabo em troca de conhecimentos inalcançáveis, e de lá para cá não foram poucas a vezes que alguém teve que se virar com o pagamento que vem sempre com o acordo, que quase sempre é bem amargo. O Pacto volta a contar essa história, mas de modo tão desleixado que até o Diabo deve acabar com vergonha.

Na verdade O Pacto não conta com nenhum tipo de lado sobrenatural, conta apenas a história desse professor de escola pública vivido por Nicolas Cage (em um daqueles momentos horrorosos de sua carreira) que, ao ter sua esposa (January Jones) atacada e estuprada por um criminoso, acaba recebendo uma proposta de um estranho (Guy Ritchie), onde ele promete vingar esse crime em troca de um pequeno favor em algum momento do futuro.

É lógico que ele aceita a proposta e, quando vê, já está metido em uma trama onde descobre que esse “favorzinho” pode ser muito mais do que ele imaginava. Esse ponto de partida então nem decepciona muito, principalmente pelo roteiro de Todd Hickey e Robert Tannen que tomam todo cuidado em certos pontos do começo da história, mas que em pouco tempo se perdem, junto com a direção de Roger Donaldson, em um descontrole narrativo que faz ser impossível não se irritar com o andamento de O Pacto.

Se logo de cara O Pacto se diverte criando esse vilão e todo seu perigo contra alguém que decide “dar com a língua nos dentes”, todo o resto do elenco parece ainda mais bem desenvolvido em um primeiro momento, do amor entre o casal principal a toda personalidade correta e justa do protagonista. O Duro é logo perceber que nada disso será usado no decorrer da trama.

Pior ainda, por tempo demais O Pacto pouco se importa de não engatar a segunda marcha e permanecer nesse meio termo sem graça e sem ritmo, principalmente pois o espectador fica esperando, não só um pouco de ação, como algum momento onde tudo aquilo apresentado no começo possa ser resgatado. Seria mais que divertido ver aquele perfil enxadrista do personagem de Cage tendo o mínimo de estratégia diante de tudo que tem que passar ao invés de, simplesmente, sair por ai seguindo qualquer pista com que ele dê de cara, ainda mais quando, no final das contas, nem uma resolução inteligente ele consegue tramar (já que não faz absolutamente nada dentro do estádio e, em poucos segundos, já está novamente à mercê do vilão).

E essa falta de inteligência não parece ser característica apenas do protagonista, mas sim uma faceta de todos outros personagens do filme (talvez a exceção seja o vilão) e vai de encontro ao trabalho descontrolado de Roger Donaldson (mais conhecido pelo recente Efeito Dominó e pela ficção A Experiência). Donaldson então tem a mania horrorosamente irritante de se empolgar com um número enorme de momentos que não tem a mínima importância, como o monte de detector de metais que dão as caras e o completo exagero melodramático em frente a uma máquina de doces, que poderia durar alguns poucos segundo, mas parece ser estendido até o último frame possível. Mesmo que isso não tenha a melhor importância, já que é obvia a solução daquele conflito, ou não teria mais filme (que talvez não fosse um ideia ruim).

E assim como os detectores de metal perdidos pelo filme, Donaldson ainda dá uma atenção tremendamente inútil para um casal de pessoas dentro de um ônibus, para a melhor amiga da esposa de Cage e até para um vendedor de loja de conveniência, todos que, se não pudessem sumir da história, pelo menos serem muito mais passageiros dentro dessa história que já sofre por falta de ritmo.

Para completar o trabalho equivocado de Donaldson, sua câmera ainda teima em uma espécie de zoom atrapalhado (que parece ser feito digitalmente na pós-produção) e ainda na falta de coragem de seguir adiante sem olhar apara trás para ver se o policial acidentado sairia andando do carro, algo que poderia ser facilmente solucionado com um acidente um pouco menos agressivo.

E isso é o retrato de O Pacto, que parece ter medo até de vilanizar demais essa “associação que lida com pessoas” ao mesmo tempo em que não se importa de retratar esses policiais com indagações imbecis como “por que você está tenso?”, mas sem aceitar tomar um lado, seja contra ou a favor desse fascismo velado, mesmo que a falta de inteligência, e foco, de um dos mocinhos não faça ser tão difícil torcer pelo lado errado, já que, de acordo com o discurso final do vilão, eles devem salvar até o lado ecológico dessa cidade, mesmo que isso não faça o menor sentido.


Seeking Justice (EUA, 2012) escrito por Todd Hickey e Robert Tannen , dirigido por Roger Donaldson , com Nicolas Cage, Guy Pearce, January Jones, Jennifer Carpenter, Harold Perrineau e Xander Berkeley.


Trailer – O Pacto