O Nariz ou A Conspiração dos Dissidentes | Inteligente, eficiente e inusitado


Andrey Khrzhanovsky é um experiente diretor experiente de animações russo, vem desde 1966 assinando trabalhos nesse estilo de cinema. E o mais importante, sem nunca perder o olhar crítico e a personalidade. O Nariz ou a Conspiração dos Dissidentes ataca nos dois lados de modo divertido, inteligente e eficiente.

A ideia é do próprio Khrzhanovsky em parceria com o experiente roteirista Youryi Arabov e, é claro, uma ajudinha de Nikolay Gogol e sua maluquice O Nariz. Bem verdade os dois e Gogol ainda recebem uma forcinha do compositor Dimitri Shostakovich, que é de onde sai a meio verdadeira história que inspirou O Nariz ou a Conspiração dos Dissidentes.

Khrzhanovsky então conta essa quase fábula que começa com essa ópera escrita por Shostakovich que adaptava, justamente, a obra de Gogol, O Nariz. A animação com jeitão de 2D e recortada cria uma movimentação divertida e esquisita enquanto a história maluca ganha vida no palco, com seus personagens cantando e se esgoelando. Existe um exagero e uma vontade de não se levar a sério que permite que Khrzhanovsky, sutilmente, critique uma estrutura social engessada e corrupta do mesmo jeito que Gogol já o fazia, mas agora mostrando que as críticas não parecem envelhecer.

E talvez aí esteja o maior acerto de O Nariz ou a Conspiração dos Dissidentes, conseguir conversar com seu público de modo eficiente, mesmo tão distante em questões de época. É fácil trazer para os dias de hoje as aflições tanto de Gogol, quanto de Khrzhanovsky.

É lógico que por ficar muito tempo grudado na ópera em si, mesmo as mudanças de estilo de animação e a metalinguagem dos relances onde é possível observar os animadores em seu trabalho, o ritmo baixa e o filme se torna monótono por parecer estar batendo na mesma tecla. É quando entra em cena Stalin para salvar tudo.

A veracidade dessa parte não é tão confiável assim, mas realmente Stalin, um certo dia resolveu ir à opera e deu de cara com um trabalho Dimitri Shostakovich (não O Nariz), o que resultou numa denúncia ao compositor. Mas Khrzhanovsky quer mesmo é usar o ridículo dessa situação inteira para ir bem mais longe. E consegue.

O quase inocente Stalin de O Nariz ou a Conspiração dos Dissidentes é uma pérola dentro do filme, o jeito como seu entourage (real) desmaia quando é chamada é uma crítica ácida que é só a ponta desse iceberg. Khrzhanovsky faz você rir da situação enquanto prepara o terreno para uma reviravolta em forma de verso de ópera, acompanhando o nascimento da política de censura e da tentativa de processo de transformação da arte russa em um realismo que reprimia qualquer outra tendência que não se encaixasse nisso.

O tal “realismo” de Stalin era “heroico” e precisava enxergar uma idealização comprometida com as intenções totalitárias de Stalin. E quando no parágrafo anterior eu citei “reprimir”, o que eu queria dizer era “fuzilar” mesmo.

Khrzhanovsky então faz um pequeno tratado do que aconteceu com a antiga “URSS” nos anos que sucederam essa ida de Stalin à ópera e talvez o clima acabe ficando um pouco mais pesado do que o começo divertido e colorido. Mas de qualquer jeito, a importante mensagem fica clara e fecha um filme que consegue ter vários lados dentro uma mesma ideia.

O Nariz ou a Conspiração dos Dissidentes só perde muito sua força ao tentar colocar sua história dentro de uma tela portátil em uma viagem de avião “live action”. Afinal, uma mensagem tão importante e uma história tão cheia de significado e personalidade não poderia ser desperdiçada nessa micro telinha cheia de gente que não está prestando tanta atenção naquilo como deveria. Mas talvez ninguém esteja prestando atenção também fora do avião, justamente por isso continuamos errando sem aprender nada com a história.


“Nos Ili Zagovor Netakikh” (Rus, 2020); escrito por Andrey Khrzahnovskiy e Yuriy Arabov; dirigido por Andrey Khrzahnovskiy


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