O Mordomo da Casa Branca

O Mordomo da Casa Branca começa com esse Forest Whitaker envelhecido por um quilo de maquiagem e sentado ao lado de uma grande porta, o diretor Lee Daniels então coloca-o bem no ponto de fuga da imagem e logo depois substitui esse plano pelo de dois O Mordomo da Casa Branca Posternegros enforcados no primeiro plano com a tremulante bandeira dos Estados Unidos no mesmo canto superior direito (vulgo ponto de fuga). Assim mesmo, sutil como um elefante em um loja de cristais.

Daniels então (que vem do superestimado Preciosa e do embaralhado Obsessão), só quer saber mesmo disso: de exalar esse ódio pelo seu país e por todo absurdo do preconceito racial que mancha a história do século XX dos Estados Unidos. Isso, sendo acompanhado pela história desse mordomo, que começa lá em um campo de algodão no sul, quase escravista, e termina, justamente, com a eleição de Barak Obama para o maior cargo político (talvez) do mundo.

Panfletário, descontrolado e (por que não) preconceituoso, O Mordomo da Casa Branca até parte de um pretexto interessante, desse mordomo que passou pelo gabinete de sete presidentes, mas infelizmente (e pelo personagem ser negro) isso é resumido a apenas questões raciais. Pior ainda, se permitindo achar que em quarenta anos de governo o único real problema dos Estados Unidos é o racismo. E seria uma tremenda burrice achar que isso é uma afirmação verdadeira.

Daniel então é melodramático. Seu personagem principal é uma espécie do bobalhão alienado, que por não poder ser “politizado” para aquele emprego, demora três décadas para se posicionar diante de um chefe que, muito provavelmente, deve ter carteirinha de sócio da Ku Klux Klan e mantém uma Casa Branca afogada em um Aphartheide que parece ser ignorado por todos presidentes que passaram por lá, sejam liberais, democratas ou republicanos. Um ponto de partida simplório que só serve para criar a ironia do protagonista ter que conviver com o filho vivendo uma espécie de Forrest Gump do movimento contra-racismo do país, já que esteve em todos lugares, de Luther King à Panteras Negras.

E o diretor parece tão levado por esse desespero em criar esse panorama racista dos Estados Unidos que não percebe o quanto sua história vai se tornando cada vez menos e menos interessante enquanto se afasta mais e mais da Casa Branca. Sem o contato que poderia ter com os Presidentes, e talvez algumas histórias mais curiosas sobre as situações políticas de cada um deles, o que sobra são minúsculas participações de grande atores em caricaturas de grandes líderes. Um total desperdício.

Isso, em um filme inflado e didático demais diante de um cineasta que já pode conviver com um certo privilégio ligado a seu nome (todo mundo adora Preciosa e a pertinência de sua história, ainda que meio vazia). É impossível não notar o quanto a maioria dos personagens à volta do protagonista estão lá somente para um ou dois momentos de destaque, mas sem a menor importância. Ou alguém realmente se preocupou em acompanhar o arco narrativo do vizinho vivido por Terence Howard e que não importa em absolutamente nada em para ninguém.

O Mordomo da Casa Branca

E isso, em um elenco interessante, cheio de caras conhecidas e que poderiam render momentos muito mais interessantes, mas que é jogado fora por não ter nada com que trabalhar. Falta desafio até para a volta de Oprah Winfrey às telas (até indicado ao Oscar em 1985 por A Cor Púrpura ela já foi, e depois disso só teve destaque em Bem Amada, em 1998), com muito tempo dentro da trama, mas muito pouco em que se escorar para desenvolver algo mais sutil (tudo bem, nos últimos momentos da personagem seu trabalho é ótimo, mas só isso mesmo).

E talvez essa falta de interesse venha com algumas opções meio bobinhas e didáticas demais para um história em que caberia muito mais profundidade e subjetividade. Decisões que se sustentam mostrando bolos enquanto a narração lembra o quanto o personagem passava fome, ou focando naqueles negros mortos (lá do começo do texto) para recordar o quanto “estava em apuros”. Como se ao invés de uma plateia pronta a entender que o mais assustador da história toda seja ter que discutir preconceito racial em um sociedade a menos de 50 anos, se contente em “descobrir” os perigos (e decisões) de ser negro nos Estados Unidos.

Um erro que rebaixa o espectador que quer pensar. Em compensação faz vibrar aquele mesmo que se contentou em riscar a superfície do “real problema” no drama de 2011 (que também finge discutir o racismo), Histórias Cruzadas (e até no próprio Preciosa), e sair do cinema feliz por ter encarado apenas um lado do situação, enquanto o outro permanece lá, escondido dos olhos e da mente. O Mordomo da Casa Branca aponta o mesmo dedo, mas ao custo grande demais para quem não quer acabar o pacote de pipoca e voltar para casa do mesmo jeito que entrou no cinema (ou deu play no controle remoto).


“Lee Daniel´s The Butler” (EUA, 2013), escrito por Danny Strong, Will Haygood (artigo), dirigido por Lee Daniels, com Forest Whitaker, Oprah Winfrey, David Oyelowo, Terrence Howard, Cuba Gooding Jr. Lenny Kravitz, Robin Williams, Johns Cusack, James Masrden, Live Schreiber e Alan Rickman


Trailer do filme O Mordomo da Casa Branca

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