O Menino que Fazia Rir | Uma biografia encantadora e cheia de humor


Gostaria de dizer que O Menino que Fazia Rir é um filme doce, que tem a linda mensagem de que rir é o remédio para a dor e o sofrimento, mas, desculpem os leitores, eu não assisti filmes da Disney o suficiente na minha infância para transformar meu coração em algodão-doce. E, devo arriscar dizer, nem os idealizadores deste filme.

Isso porque há algumas desgraças nessa história, e não estou me referindo à passagem desajeitada do tempo, que nos conta quando o ano é 1971 ou 1972, sendo que isso não tem a menor importância na história. Pessoas morrem no filme. Pessoas queridas. Não porque há um vilão. São coisas da vida, sabe. Acontece com todo mundo. Acontece nas melhores famílias.

Estamos na Alemanha, década de 70, ouvindo um garotinho rechonchudo e engraçado nos contar a sua história. Ele lamenta por uma perda que ainda veremos, fechando o combo “narração em off porque é fácil” e “filme inteiro em flashback sem precisar”. Suas avós são uma delícia, daquelas pessoas que formam o nosso caráter e ainda fazem bolos deliciosos. E sua mãe, a dádiva da natureza em pessoa. Alegre, leve e que nos faz concluir de onde veio o tom alegre deste garoto, Hape Kerkeling.

Hape Kerkeling é um ator, apresentador e comediante alemão. Mas você já sabe disso no começo da história mesmo sem ser alemão. Hape garoto aponta para a TV preto e branco e diz: “já sei o que quero ser: esse cara da TV de quem todos riem”. Estamos assistindo a uma biografia pautada nas perdas do comediante quando era apenas um garoto como outro qualquer, com sonhos e esperança.

É tocante que sua trajetória possa ser explorada por suas perdas na infância, e mais tocante ainda a adaptação de Caroline Link do livro do próprio Hape Kerkeling, o que culminou no roteiro de Ruth Toma. Esse trabalho em conjunto gera uma obra que a direção de Caroline Link transforma em um frescor, um filme gostoso de ver, que não se preocupa em explicar demais, mas mais no sentir do que não pode ser explicado. Este é Hape, sua mãe, suas avós, e tudo o que ele precisa saber para poder viver reside nessas três figuras maternas.

É um prazer fazer parte desses pequenos momentos nessa pequena cidade alemã. A direção de arte do filme nos transporta para essa mescla entre a natureza presente nos jardins e nas montanhas que cercam os habitantes, a culinária e confeitaria alemã, riquíssima em sabores ainda que usando o mesmo padrão de receitas – bolos e embutidos – e a cerveja e a música, sempre presente nos eventos em família, nas festas e nos momentos de lazer. Há um trabalho de imersão elaborado aqui que já valeria o ingresso.

Mas além disso o filme de Caroline Link nos leva um pouco além, na busca por sensações da infância que farão a diferença quando adultos. Para isso, ela cria uma separação das cenas onde os eventos mais importantes de sua família, como a mudança, a doença e a morte, são apenas informados ao jovem Hape, e geralmente no último momento. Cabe ao garoto tentar extrair o significado de tudo isso, e ele encontra o significado no humor. A descoberta disso por ele é mostrada de maneira simples, mas não simplória: a risada das pessoas é o sinal de que ele precisava para entender o que pode fazer na vida.

O Menino que Fazia Rir não é um filme intrincado, manipulativo e que possui reviravoltas. É antes um filme de sensações que todos temos na infância, e que nesse caso moldou um comediante alemão. Ao final ele diz que descobriu apenas muito mais tarde que ele era parte sua mãe, parte sua avó, parte seu pai e assim por diante. Essa é uma maneira poética de entender a vida, mas não totalmente fantasiosa. Ganhamos parte dos que nos geraram via genética e emprestamos dos com quem convivemos para nos tornar quem somos. Encontrar algo tão profundo em uma pequena biografia despretensiosa é uma recompensa encantadora.


“Der Junge Muss an Die Frische Luft” (Alemanha, 2018), escrito por Ruth Toma e Caroline Link à partir do livro de Hape Kerkeling, dirigido por Caroline Link, com Julius Weckauf e Luise Heyer.


Trailer do Filme – O Menino que Fazia Rir

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