Cinemaqui > Críticas > Eduardo Sandrini > O Médico Alemão

O Médico Alemão

Esta crítica contém spoilers.

“O Médico Alemão” é um drama histórico que retrata um período daMédico Alemão Poster vida do infame médico nazista Josef Mengele durante o início de seu exílio na América do Sul em meados dos anos 60. Vivendo com uma nova identidade, Mengele se refugia em um hotel na Patagônia, em uma cidade onde a maior parte da população é de descendência alemã. Lá ele faz amizade com a mulher do gerente do hotel, Eva, a princípio, devido a fluência dela na língua germânica. Com o tempo, o doutor mostra cada vez maior interesse na gravidez de Eva, que espera por gêmeos, assim como no desenvolvimento da filha adolescente do casal, Lilith.

Desenvolvendo o longa como um exemplar perfeito de filme de suspense, o trabalho feito pela diretora e roteirista Lucía Puenzo é admirável ao nos deixar completamente intrigados – e apavorados – à espera do que pode acontecer. Abrindo o longa, aparentemente, com Mengele como protagonista, tanto a identidade dele como o simples fato de ele ser o vilão da história são deixados em segredo até o segundo ato do longa, criando uma interessante subversão de expectativas.

Mas, mais importante do que isso, mesmo quando já desconfiamos de quem o estranho doutor realmente é, ainda não é claro exatamente o que ele pretende fazer com suas pacientes. A dúvida se ele realmente quer ajudá-las – por que ele iria machucá-las e chamar a atenção para sua presença? – permanece até o terceiro ato do longa. E essa dúvida é criada de forma hábil ao tecer um personagem que, embora perverso, é bem mais complexo do que um simples vilão unidimensional. O próprio título original do longa, Wakolda, traz este aspecto. Wakolda é a boneca favorita de Lilith, uma boneca com um coração que não bate, mas diferente de qualquer outra existente na época.

A boneca acaba simbolizando não apenas o médico em si (um ser sem coração), mas – através de seus sketches dos corpos de seus pacientes e a forma desprovida de qualquer empatia, com a qual trabalhava com suas cobaias – espelha também de forma genial o pai da garota, Enzo, um criador de bonecas – que eram suas “pacientes”. Ao contrário do doutor, Enzo tem um amor imenso por suas criações e atinge o ápice de sua carreira ao conseguir fazer com que o coração de suas bonecas batam, dando vida a elas, enquanto os experimentos de Mengele, em sua maioria, só traziam a morte consigo. Desta forma, o longa faz destes personagens duas forças opostas e cria um interessante antagonismo entre as duas figuras paternas na vida da jovem Lilith.

Médico Alemão

Criando esses paralelos e simbolismos de forma completamente orgânica à narrativa, o filme se mostra extremamente interessante e complexo em seus detalhes, enquanto a trama principal é tensa e assustadora (isso sem falar no desfecho aterrador do longa). E o trabalho de Puenzo é ainda mais espantoso por conseguir tirar de seu talentoso elenco performances brilhantes.

A construção de cada personagem é única, com cada figura apresentando uma personalidade claramente distinta, que toma atitudes perfeitamente coerentes com sua forma de ser. Por esse motivo que o filme acaba funcionando tão bem como suspense, pois nós caímos nas armadilhas juntamente com os personagens que estão na tela. Mas o grande destaque de atuação vai mesmo para Àlex Brendemühl que vive o misterioso doutor fugindo de qualquer tipo de caricatura, o que nos faz acreditar nele tanto quanto as pessoas que ele engana. A performance contida, mas cheia de nuances, do ator cria um personagem introspectivo e enigmático pronto a nos surpreender a cada esquina. Mas é quando ele, finalmente, mostra de forma clara seu lado cruel – ainda que o fazendo apenas com palavras e de forma completamente controlada –, que nos damos conta do quão maligno aquele ser realmente era. A curta tomada em questão consegue ser mais impactante do que qualquer decapitação ou desmembramento visto nos diversos filmes genéricos de terror que invadem a telona todos os anos. Uma demonstração de como fazer cinema é uma arte que vai muito além de meros efeitos visuais.

Indicado a diversos prêmios, O Médico Alemão é uma obra que não merece ser vista apenas uma vez e demonstra novamente a qualidade do cinema argentino nos mais diversos gêneros.


Wakolda  (Arg, 2013), escrito por Lucía Puenzo, dirigido por Lucía Puenza, com Natalia Oreiro, Àlex Brendemühl, Diego Peretti e Florencia Bado.


Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.