O Homem Que Vendeu Sua Pele | O preço da arte


O mais impressionante de O Homem que Vendeu sua Pele é a verdade. Primeiro por se basear em uma situação verídica. Segundo por levantar uma questão tão real que incomoda. É perturbador discutir o filme e pior ainda se deixar levar por aquilo que o filme quer conversar com o espectador. E isso faz dele uma experiência imperdível.

Sobre a parte do “baseado em uma história real”, o filme meio belga, meio tunisiano, nasceu do contato que o diretor e roteirista Kaouther Ben Hania teve com uma obra de Wein Steiner. Nela, o artista, já conhecido por tatuar porcos em suas “intervenções”, foi além e tatuou as costas de um outro artista belga. A “obra” foi vendida para um colecionador alemão e agora o homem que serviu de tela precisa se apresentar em exposições e ainda tem a pele de suas costas prometida para o dono da peça diante de sua morte.

O filme segue boa parte da ideia, mas vai mais longe enquanto conta a história desse sírio que precisa fugir para o Líbano e, desesperado para conseguir reencontrar seu grande amor, aceita se tornar a tela de um famoso e excêntrico artista. A trama extrapola a simples ideia do caso real e mergulha em uma experiência sobre amor, liberdade e arte. Tudo junto, em uma tatuagem só.

A tatuagem no caso é a reprodução de um Visto Schengen, que dá acesso a 26 países da Europa. Como o próprio filme aponta, tirando esse refugiado sírio da posição de humano e colocando-o com mercadoria, consequentemente, dando para ele a liberdade que ele deveria ter. Ao ser transformado em obra de arte, seu valor vai aos milhões e todas as portas se abrem, mas é preciso desumanizar ele para que isso se torne possível.

Como o próprio personagem lembra, ele nasceu no lado errado do mundo.

O Homem que Vendeu Sua Pele é sobre isso, sobre o quanto a sociedade pode desistir de lidar com seres humanos e aceitar a ideia de lidar com conceitos. O sonho do protagonista é surgir em um outro país para resgatar o grande amor dos braços do marido dela, mas nem isso se afasta muito da fantasia onde ele precisa viver (ou sobreviver) para conseguir esse objetivo. Aceita se tornar algo e não mais alguém, para se sentir mais uma vez humano.

No meio dessa história, o tal artista famoso se aponta como uma espécie de Mefistófeles, mas nem de perto ele está lidando com um Fausto. Não existe uma alma em jogo, mas sim um significado, assim como na arte, a ideia extrapola o que está na tela e vai de encontro ao sentido. Não importa a qualidade do desenho ou qualquer outro valor estético, mas sim o quanto aquilo se torna uma ideia tão poderosa que reduz o protagonista a uma situação de coisa.

A ideia da pele como tela também não é novidade, membros da Yakuza já perderem suas costas tatuadas depois de suas mortes e não viram sua pele se tornar um quadro. Em O Homem que Vendeu Sua Pele, uma apólice de seguros garante o ressarcimento caso o protagonista tenha a arte prejudicada diante de sua morte. Sua origem síria surge como um aumento de risco e quando se menos percebe, o seu pingo de humanidade se esvai diante da burocracia da garantia do investimento.

O que impede o protagonista de esquecer que é ser humano é ele mesmo. Uma mistura de inocência com raiva vai crescendo dentro dele como uma coceira. Mesmo sem conseguir sair dessa posição de algo, não consegue deixar de ser alguém, seja pedindo uma foto para a mãe, seja olhando para seu grande amor com a esperança de que tudo ainda pode dar certo. O roteiro de Kaouther Ben Hania coloca esse caminho grudado sempre perto daquilo que tira dele a humanidade. São pequenos detalhes, mesmo dentro dessa desumanização, que sempre tirar o protagonista de dentro dessa objetificação.

A própria câmera de Hania parece recusar a tatuagem e sempre faz de tudo para desviar o olhar dela. Ela não importa, quem importa é o personagem e essa mutação dele, essa transformação em conceito, mas sempre o olhando nos olhos, buscando essa verdade e o quanto ele nunca deixa de ser humano, mesmo sentado no meio de um museu com pessoas apontando para ele como em um quadro qualquer.

Fugir seria o mesmo que roubar uma obra de arte, ficar, o mesmo que aceitar ser mercadoria. Em ambos os casos o resultado é, justamente, o objetivo do artista: a transformação em ideia.

E talvez não seja esse o objetivo da arte? Provocar aquilo que não estava sendo sentido. Mostrar a obviedade de uma sociedade quebrada mesmo que ela não esteja preparada para ter essa conversa. Aos poucos o artista vai se transformando em um conflito. Suas ideias vão ficando mais quebradiças e contraditórias dentro do que foi posto como provocação inicial. Aquilo que era uma certeza, passa a ter um outro significado.

A transformação do protagonista em algo fica para trás, o significado passa a ser outro, mais complexo ainda e colocando em prova a própria arte como conceito diante da selvageria de um mercado que não se interessa pelo significado, mas sim pelo valor. Enfrentar isso talvez seja mesmo o objetivo da arte.


“L´Homme Qui a Vendu As Peau” (Tun/Fra/Bel/Ale/Sue/Tur, 2020); escrito e dirigido por Kaouther Bem Hania; com Yahya Mahayni, Dea Liane, Koen De Bouw e Monica Bellucci


Trailer do Filme: O Homem Que Vendeu Sua Pele

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