O Homem do Futuro

por Vinicius Carlos Vieira em 02 de Outubro de 2011

O Homem do FuturoNão é exagero, muito menos nenhum tipo de desvalorização, falar que o diretor Claudio Torres, em termos técnicos, está ali naquela média, sem momentos genias, mas completamente longe de qualquer desastre. A diferença dele para um punhado de outros cineastas medianos nacionais (e que, talvez, o eleve um degrau acima) é sua inquietação, sua vontade de fazer algo diferente dentro do cinema brasileiro (algo que por si só merece aplausos). O Homem do Futuro reflete exatamente isso.

Com a mesma vontade de contar a história de um amor que ultrapassa a simples realidade (como fez em A Mulher Invisível) Torres agora resolve dialogar com um gênero pouco (ou melhor, absolutamente nada) aproveitado no cinema nacional: a ficção científica. Assim como fez na “quase fantasia” O Redentor, o diretor não usa o gênero como ponto de partida, mas como desculpa, como ferramenta. Como um modo de alcançar um objetivo.

Por definição, O Homem do Futuro é essa comédia romântica sobre um cara que ainda não conseguiu esquecer o grande amor de sua vida e, mesmo tendo se passado vinte anos de sua vida, ainda parece carregar o peso dos arrependimentos de uma fatídica festa de faculdade. Na verdade, esse cara é Zero (Wagner Moura), um cientista que, ao pesquisar uma nova forma de energia acaba criando uma maquina do tempo que lhe leva exatamente para a noite que mudou sua vida.

É com isso em mãos que Claudio Torres (que também escreveu o roteiro) cria então essa espécie de misto de De Volta Para o Futuro com Efeito Borboleta, com as mesmas lições de moral e as mesmas conclusões, mas sem, em nenhum momento perder seu próprio foco e a simpatia. Acima de qualquer coisa O Homem do Futuro é um passatempo leve, sobre amor, escolhas e o quanto elas podem mudar o futuro.

Cheio de segurança, O Homem do Futuro se diverte bagunçando todos esses paradoxos temporais (bagunçando, mas nunca se enrolando!) e acaba surpreendendo na hora de criar esse conflito, que parece obvio até certo ponto (mas não é) e ainda, junto disso, dá ao filme uma dupla de vilões no mínimo inusitada. É essa dinâmica e essa vontade de ousar dentro dessas “possibilidades temporais” que faz o filme de Claudio Torres ter um ritmo tremendamente acertado e seguro o bastante para revisitar situações e sub-tramas sem se tornar repetitivo em momento algum.

E ainda que Claudio Torres não faça nada demais, e até erre feio ao usar uma espécie de filtro completamente desnecessário para “estourar” a imagem de um flashback, recurso que parece não condizer com o resto do filme, já que uma montagem firme não deixa o espectador se perder no tempo (e caso não o fizesse, uma direção de arte competente se encarregaria de tal posicionamento temporal), o que o diretor acaba fazendo de melhor é, justamente, abrir espaço para um protagonista forte e mais uma atuação cheia deO Home do Futuro Filme personalidade (assim como tinha feito co Selton Mello em Mulher Invisível e Pedro Cardoso em O Redentor).

Wagner Moura, em mais um trabalho extremamente competente (mais incrível ainda se lavado em conta que vem depois de outros dois momentos memoráveis de sua carreira, em Tropa de Elite 2 e VIPs), tem a oportunidade de criar esses três Zeros e compor suas diferenças de modo sutil e preciso. Mesmo em momentos em que esses três “personagens” se confrontam é impossível não perceber o controle de Moura com cada uma dessas variações, uma experiência que parece divertir o ator e, mais ainda o espectador, que fica mais uma vez encantado com sua facilidade de criar personagens, já que e a lista vai bem mais longe do que parece, é só dar uma procurada nas suas ótimas participações em As Três Marias, O Homem do Ano, Deus É Brasileiro, Cidade Baixa (e até Carandiru e seus filmes mais recentes) criando um quadro invejável e marcante no cinema brasileiro atual.

Mas como já havia dito, O Homem do Futuro tem duas qualidades maiores que qualquer uma dessas, a de ser simpático e divertir, tanto com essa história de amor bonita e sincera como com esse pezinho na ficção científica (e até com sua deliciosa trilha sonora que em alguns momentos parece saída de algum filme B do gênero) e a certeza de fazer bem aquilo que se propõe, justamente (já pedindo perdão pela redundância), ser divertido.


O Homem do Futuro (Bra, 2011), escrito e dirigido por Claudio Torres,com Wagner Moura, Alinne Moraes, Maria Luísa Mendonça, Gabriel Braga Nunes e Fernando Ceylão