O Gebo e a Sombra Filme

O Gebo e a Sombra

Manoel de Oliveira filmou até o final de sua vida. Morreu aos 106 anos, em abril passado, e O Gebo e a Sombra foi seu último longa dos mais de 40 que formaram sua carreira. Parte de seu legado, mas O Gebo e a Sombratambém retrato fiel de um amor pelo cinema.

Dito isso e feita a homenagem que Oliveira merece, o que sobra são equívocos e genialidade tão misturados que é complicado não ser injusto com esse seu último filme. Ao mesmo tempo essa adaptação da peça de Raul Brandão erra e acerta sem qualquer cerimônia, resta a seu espectador conseguir permanecer acordado durante todo o caminho.

Quem não pregar os olhos vai acabar ganhando alguns momentos incríveis, além de atuações que valem cada segundo desperto. Quem não for dormir também vai ter que enfrentar uma série enorme de decisões estéticas e narrativas ultrapassadas em algumas décadas. Pelo menos nesse quesito O Gebo e a Sombra acaba tendo seus momentos de puro deleite cinematográfico, mas ainda assim é pouco.

Oliveira filma como um arremedo de décadas e décadas atrás. Seu planos fixos e longos além da conta, seus ângulos abertos, sua iluminação dura e seus personagens discursando quase como em uma peça de teatro não parecem vir de um filme feito nos anos 2000. Falta aproveitar tudo que o cinema criou em termos de linguagem nos últimos quarenta anos. Com um mínimo mais de agilidade, O Gebo e a Sombra seria um incrível média-metragem ou até um afinado curta-metragem.

Nele, Michael Lonsdale (que os público mais pop deve reconhecer como o vilão Hugo Drax de 007 Contra o Foguete da Morte, mas que, não se engane, é um dos grandes atores franceses de sua geração), é Gebo, um pai de família honrado que precisa lidar com o desaparecimento de seu filho João (Ricardo Trêpa, que vem trabalhando com Oliveira desde a última década). Ao lado de Gebo está sua esposa Doroteia (Claudia Cardinale, que despensa apresentações) e sua nora, Candidinha (Jeanne Moreau).

O Gebo e a Sombra Crítica

O filme então se passa na sala dessa família em dois momentos distintos (na verdade três, levando em conta o terceiro ato que fecha a trama): antes e depois da volta de João. Ainda que a história seja sobre o esforço de Gebo e Candidinha em esconder a verdadeira natureza cruel do filho com o intuito de resguardar a mãe, ainda que isso signifique sacrificar suas próprias honras.

E o lado bom é esse, não só o que parece ser resultado do texto original da peça, como da sensibilidade de Oliveira de deixar, principalmente esse trio de atores, trabalhar. Três atuações incríveis, mesmo afuniladas por aquelas opções “clássicas demais”. Bem verdade essa falta de modernização acaba valorizando ainda mais seus trabalhos, o que talvez demonstre o controle de Oliveira sobre seu material, e não algum tipo de escorregão.

Muito provavelmente então, o único escorregão vem de O Gebo e a Sombra existir nessa década e não ter sido filmado nos anos 30. E pensando bem, ainda que isso não seja muito o equívoco, o resultado ainda assim é mais chato, arrastado e desempolgante do que merecia ser.


“Gebo et L´Ombre” (Fra/Por, 2012) escrito e dirigido por Manuel de Oliveira, à partir de uma obra de Raul Brandão, com Michael Lonsdale, Claudia Cardinale, Jeanne Moreau e Ricardo Trêpa.


Trailer – O Gebo e a Sombra