O Farol | Uma escadaria que leva à insanidade


Do mesmo diretor e roteirista de A Bruxa surge O Farol, o segundo longa metragem de Robert Eggers e que zera o universo do terror, quebrando a própria quebra de expectativa do gênero e descrevendo sensações à prova de lógica. Analisar este filme usando teorias da linguagem cinematográfica tende ao fracasso. Porém, há um caminho para a compreensão: entender sobre masculinidade.

Ela vem desses dois personagens construídos com todas as forças por Willem Dafoe e Robert Pattinson e o conflito entre eles, que nos permite em um primeiro momento entender a camada convencional da história. Dafoe faz o velho lobo-do-mar fora do mar. Ele faz do farol que cuida seu navio, dá ordens ao seu subordinado como se fosse um pai severo, e está apaixonado pela luz que ele emite. Pattinson é o novato com um passado misterioso, cujo silêncio vale tanto quanto o falatório de Dafoe em sua interpretação, pois é assim que eles oferecem o contraste de personagens. Ambos são obviamente clichês e o filme não os esconde, mas os escancara, os explora, de todas as formas possíveis.

O que torna esse filme revolucionário é que todas as fórmulas fáceis de construir expectativa e quebrá-las usadas no gênero não servem para a compreensão do universo fantástico concebido por Eggers, onde os instintos mais primais do homem, seus desejos e medos, estão além de sua máscara social. E em uma longa escadaria que vai sendo escalada em direção à insanidade, quando descobrimos que essa máscara é impossível de ser retirada já estamos no último degrau para a loucura completa.

A cortina do teatro se abre duas vezes em O Farol. Na primeira vez temos os estereótipos já conhecidos e citados, usados para a história convencional, mas quando a cortina se abre pela segunda vez nossos esforços de decifrar os símbolos são completamente inúteis. Este não é um filme de símbolos decifráveis, mas apenas o puro terror psicológico de não saber mais onde pisar. O gênero terror foi sendo resgatado durante essa admirável década e agora está na hora de avançarmos nas fórmulas.

O resultado é esta experiência angustiante e enlouquecedora, cuja loucura está representada em seu próprio universo claustrofóbico e incerto. A tela quadrada e o preto e branco não afastaram espectadores para a cabine de imprensa, que atingiu o limite da sala, batendo filmes de super-heróis, mas apesar de Eggers ser um diretor que une arte e indústria com elegância, não sejamos ingênuos. O chamariz principal é Robert Pattinson, próximo ator escolhido para o papel de Batman. O Farol, mesmo, é um filme que exige paciência, imersão e abertura para conclusões abertas, principalmente em seu terceiro ato.

Ainda assim, convido todo fã de terror psicológico e estético, movido pelo repúdio à realidade que se vive, por nojo até de si mesmo, que se abra para a experiência auto-contida em O Farol. Não é um filme fácil, mas nenhum que se propõe algo novo jamais é ou foi.


“The Lighthouse” (EUA/Bra, 2019), escrito por Max Eggers e Robert Eggers, dirigido por Robert Eggers, com Willem Dafoe, Robert Pattinson e Valeriia Karaman.


Trailer – O Farol

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