O Exterminador do Futuro 2: O Julgamento Final | Igual, mas diferente… um clássico


Sarah Connor foi a heroína no primeiro Exterminador do Futuro. Ela resolveu o conflito principal e virou dona do seu próprio destino. Em Exterminador do Futuro 2: Dia do Julgamento, James Cameron, auxiliado por William Wisher (que havia contribuído no original com diálogos adicionais), expande não apenas a figura da personagem interpretada por Linda Hamilton, que vira uma protagonista “bad ass” e narradora em momentos importantes da trama, como se torna, assim como em Aliens: O Resgate (também de Cameron), um filme sobre instinto maternal e família elevado às últimas consequências: proteger a humanidade inteira do futuro sombrio que poderá surgir.

Exterminador do Futuro 2 consegue basicamente repetir a mesma história sem soar mais do mesmo, pois vem com anabolizantes no formato de novas reviravoltas (como o novo papel de Schwarzenegger) e uma tecnologia que envelheceu bem melhor que o original, já dotada de alguma criatividade na pós-produção com computadores. A Industrial Light & Magic, empresa fundada por George Lucas para a produção do primeiro Star Wars, foi responsável pelos milagres que vemos na tela, e Cameron o responsável por forçar a tecnologia a evoluir rapidamente para seu segundo filme. O resultado são efeitos de arrepiar os cabelos, que até hoje possuem uma integridade e até uma certa beleza por sabermos que todas as perseguições foram feitas com automóveis reais.

Porém, para ter uma ideia da complexidade envolvida na figura do novo Exterminador, o que conhecemos hoje como “motion capture”, captura de movimento, estava longe de existir, mas filmagens foram feitas com o ator Robert Patrick como o Exterminador mais high-tech T-1000 andando vestindo uma grade em volta de seu corpo. Essa grade foi usada pelo pessoal do computador para construir um esqueleto em movimento humano perfeito, e em cima dele construir toda a textura de seu metal líquido tomando as mais diferentes e loucas formas. Esse é o equivalente da época de quando os negativos dos filmes eram pintados quadro a quadro ou adicionadas outras trucagens.

Resolver o problema tecnológico que a história pede seria apenas uma barreira de duas: tecnologia e uma história repetida. Felizmente o roteiro de Cameron e Wisher ultrapassam a segunda (“não soar mais do mesmo”) reciclando toda a ideia da humanidade amaldiçoada na mente de Sarah e seu filho John, que cresceram com essa ideia fixa e treinaram táticas de combate e uso de armas, em mais um exemplo do futuro transformando o presente que culminará no mesmo futuro se… sim, você já sabe. Se alguém não fizer alguma coisa a respeito. Essa volta completa de viagem no tempo da série de filmes é o motor engenhosamente criado desde o primeiro filme.

Além do novo Exterminador temos a figura de Schwarzenegger como uma versão inferior enviada pelos humanos, e agora quem antes era a soma de todos os medos para Sarah se torna a figura protetora de seu filho, que assume informalmente o papel de um pai que ele nunca teve. Um pai que o serve, o entende e aprende com ele. Arnold está bem mais à vontade em seu papel, e suas expressões robóticas se tornam mais eficiente na medida em que ele demonstra em alguns momentos seu lado humano querendo sair, como um sorriso que insiste em conter ambos os mundos e nos faz sempre lembrar da nossa própria dualidade como seres humanos, dotados de amor afetivo e ódio racional, tentando criar nossas crianças como contradições ambulantes.

Quem repete o papel de Arnold no original é Robert Patrick, como o vilão impessoal e eficiente. A energia que vemos nas cenas com o ator é o que é necessário para acreditarmos em todas as transformações que o vemos realizar no filme. Começando pela própria mãe adotiva do garoto que “deseja” matar, e coloco o verbo desejar entre aspas porque esse é o traço mais horrorizante deste vilão: ele não sente nada e apenas executa o que lhe foi programado para fazer. Patrick ainda usa um ou outro artifício que aprende na interação com os humanos, como elogiar a moto de um policial que sabemos que será usada por ele na cena seguinte, mas o filme se preocupa apenas em mostrar quão poderosa é sua inteligência, embora ele não tenha qualquer empatia.

Já o Exterminador de Schwarzenegger parece legitimamente interessado em aprender com John Connor, pois foi programado por ele no futuro em uma versão adulta. Não sabemos exatamente as diretivas que Connor do futuro usou, o que ajuda a não ficarmos super-analisando cada cena que “Schwarza” entra em ação. E ao mesmo tempo sabemos que ele faria tudo pelo garoto, e John ordenar que ele não matasse nenhum ser humano adiciona uma complexidade interessante às cenas de ação, também criando ambiguidade.

Não é possível analisar esta história como um thriller de ficção científica impessoal como tantos outros filmes já feitos, pois há muito mais alma neste projeto do que pede um sci-fi clássico. Seus personagens são tão reais quanto de qualquer drama, e é essa única característica, não os efeitos, que eleva o filme a memorável mesmo quase 30 anos depois. Nos importamos com o destino de seus personagens, pois eles representam o destino de toda a humanidade a partir daí. Há tanta preocupação no presente que o filme, depois de iniciado, não nos mostra mais o futuro apocalíptico.

Edward Furlong é ainda uma das melhores escolhas de ator-mirim em filme já feita. Tenso e enérgico quando necessário, Furlong consegue tornar o jovem John Connor bem-humorado em momentos pontuais sem soar manipulativo. Ele é uma criança criada por uma mãe paranoica presa em um instituto psiquiátrico, mas tudo o que ele sempre sonhou foi que sua mãe tivesse razão em ser paranoica, e todo o seu lado durão com os pais adotivos se desmancha no momento em que ele confirma que compartilha a mesma realidade de sua mãe e que ambos agora estão de fato juntos por um objetivo em comum.

James Cameron sabe dosar momentos de ação com a calmaria. Ele entende que apenas depois que o espectador sabe exatamente o que está em jogo é que a ação pode escalar. E ela escala! A última hora de Exterminador do Futuro 2 soma momentos frenéticos e dramáticos tão perfeitos em sua dosagem que no meio do conflito entre robôs o mais importante é o ritmo da respiração humana, o batimento cardíaco de quem está assistindo ao filme.

O ciclo criado por O Exterminador do Futuro 2: O Julgamento Final soa ligeiramente diferente do seu antecessor, pois dotado das premissas do universo de que o futuro pode ser alterado, cria-se o caos e os imprevistos necessários para um filme de ação ao mesmo tempo que se reflete sobre os múltiplos destinos que temos em mão quando o controle para qual caminho seguir pertence a nós. Dessa forma, o que parecia um filme engessado desde o começo e supostamente fadado ao fracasso pelo absurdo das regras do tempo, vira seu próprio combustível para novos filmes. O que nós, espectadores, não sabíamos, é que essa seria a nossa verdadeira maldição no futuro.


“Terminator 2: Judgment Day” (EUA, 1991), escrito por James Cameron e William Wisher, dirigido por James Cameron, com Arnold Schwarzenegger, Linda Hamilton, Robert Patrick e Edward Furlong.


Trailer do Filme – O Exterminador do Futuro 2: O Julgamento Final

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