O Dono do Jogo Filme

O Dono do Jogo | Xadrez e Guerra Fria levados à sério

Bobby Fischer foi um gênio do xadrez — e, ao decidir enfrentar o campeão mundial durante a Guerra Fria, tornou-se responsável por uma surpreendente popularização do esporte. Mas Fischer também enfrentava sérios problemas mentais, que pareciam piorar conforme ele se tornava mais e mais obcecado em derrotar o russo Boris Spassky. Acompanhamos tudo isso em O Dono do Jogo — que, mesmo assim, parece não ter coragem de se aventurar na mente de seu protagonista.

Iniciando sua narrativa “in media res”, o filme já nos apresenta a um Bobby Fischer (Tobey Maguire) no auge de sua paranoia, extremamente consciente de cada ruído e ranger ao seu redor depois de abandonar uma partida contra Boris Spassky (Liev Schreiber). A sequência erra ao tentar injetar no filme uma tensão desnecessária para seu início — e, para piorar, o longa continua falhando quando passamos a acompanhar a trama de forma linear.

Bobby era um garoto solitário que começou a jogar xadrez como distração, mas logo demonstrou um grande talento para a atividade que aprendeu sozinho. A dinâmica de Bobby com sua família — a mãe (Robin Weigert) e a irmã mais velha, Joan (Lily Rabe) — é trabalhada de forma decepcionantemente rasa. Joan parece se importar e se preocupar muito com Bobby, tendo ajudado a cuidar dele quando criança — então, por que ela está tão pouco presente na trama?

O período em que acompanhamos Bobby na adolescência é, pelo menos, breve — algo bem vindo considerando a fraqueza do desempenho de Seamus Davey-Fitzpatrick, que protagoniza uma cena embaraçosa ao se deparar com o novo namorado da mãe. Aliás, enquanto Tobey Maguire demonstra controle e talento em sua atuação, a personalidade chiliquenta de Bobby não muda — dado a gritos e demonstrações infantis de raiva, o protagonista é pedante, arrogante e, simplesmente, chato. Claro, ele também é genial em seu esporte, e perturbado por seus distúrbios mentais não diagnosticados e não tratados — e Maguire consegue, até certo ponto, imprimir carisma ao personagem.

Mas o fato é que Bobby obviamente precisa de ajuda profissional — algo que é visto com maus olhos por todas as pessoas ao seu redor. Sua irmã, Joan, reconhece isso, mas não se esforça muito para que Bobby a consiga. Enquanto o padre e jogador amador Bill (Peter Sarsgaard) se estabelece como a figura mais equilibrada do longa — sendo o único que consegue acalmar Bobby —, ele ainda comete o absurdo de comparar a medicação de doenças mentais ao ato de “despejar cimento em um poço sagrado”.

O Dono do Jogo Crítica

Porque O Dono do Jogo, de certa forma, se sustenta na teoria de que os problemas de Bobby são o motor de sua genialidade no xadrez, e que são a pressão e a lógica intensa do jogo que o fazem chegar no limite de sua sanidade. Mas é preciso apenas um pouco de bom senso para perceber o quanto essa noção é irreal — e, até mesmo, perigosa. Afinal, até que ponto Bobby pode derrotar Spassky e ser o melhor jogador de xadrez do mundo se o simples som de uma câmera gravando o impede de se concentrar? Os letreiros finais — onde a verdadeira história se esconde — demonstram que, se devidamente medicado e tratado, Bobby poderia ter contribuído muito mais para o xadrez. E, o mais importante, levado uma vida saudável e, na medida do possível, feliz.

Este é outro grande problema em O Dono do Jogo: os letreiros que encerram o filme, intercalados com imagens de arquivos, contam a história que o diretor Edward Zwick e o roteirista Steven Knight tiveram medo de contar ao longo do filme. Ali, nos deparamos com o real alcance dos problemas de Bobby, o que torna ainda mais absurdo o fato de que ninguém pareceu levá-los devidamente a sério.

Interessante ao demonstrar o quanto a popularidade de Bobby se deve ao fato de que, com o conflito entre os Estados Unidos e a União Soviética, a partida entre ele e Spassky se tornou simbólica da própria Guerra Fria, Zwick também usa o contexto como fonte das paranoias de Bobby. Por outro lado, recorrendo excessivamente ao uso de imagens de arquivo para estabelecer seu período e locações, o longa se diverte com uma cena inorgânica em que a delegação russa chega à Califórnia e desce do carro no meio de uma praia em Santa Monica, apenas para aparecer logo em seguida desembarcando no hotel — a cena da praia não tinha razão alguma para existir, além de colocar um bando de homens sérios e engravatados naquele cenário. Parecendo perceber, também, o quanto as duas mulheres na vida de Bobby foram escritas de forma rasa, o longa tenta consertar o erro ao incluir uma prostituta (Évelyne Brochu), que… é escrita de forma igualmente rasa.

Entretanto, algo que os cineastas alcançam com talento é, também, um elemento essencial para que o filme não se torne um desastre completo — tornar o xadrez visualmente interessante. Centrado na lógica, o xadrez resulta em partidas silenciosas em que o mais importante são o olhar e os movimentos corporais dos oponentes — e, nesse sentido, Maguire e Schreiber se saem muito bem. Outro problema é que é preciso conhecer as regras do xadrez para acompanhar uma partida — algo contornado por acompanharmos o progresso através das reações dos jogadores e dos espectadores, além dos breves comentários do Padre Bill para o advogado Paul Marshall (Michael Stuhlbarg).

Assim, O Dono do Jogo é hábil em demonstrar a beleza do xadrez — mas falha em sua recusa de mergulhar na mente de seu protagonista. E, considerando a complexidade da mente em questão, esse é um erro imperdoável.


Pawn Sacrifice (EUA/Canadá, 2014), escrito por Steven Knight, dirigido por Edward Zwick, com Tobey Maguire, Liev Schreiber, Peter Sarsgaard, Michael Stuhlbarg, Lily Rabe, Évelyne Brochu e Robin Weigert.


Trailer – O Dono do Jogo

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