O Corvo

É difícil entender o intuito de O Corvo, filme de suspense estrelado por John Cusack na pele do escrito Edgar Allan Poe; se ele acredita nessa espécie de “teoria da conspiração” envolvendo a morte do escritor ou se, simplesmente, na tentativa de ter um filme de ação obvio se contenta em ser mais um no meio da multidão.

“Mais um”, por que não é a primeira vez no cinema (ou nas artes em geral) que um psicopata resolve enfrentar um artista comum por meio de referências em suas obras que o levam, então, a se juntar à polícia para desvendar os crimes (há até no ar uma série de TV, Castle que usou dessa premissa no primeiro capítulo). Por cima dessa ideia batida, sobra para o diretor James McTeigue (do divertidamente vazio Ninja Assassino) encher o filme com um punhado de plongeés estilosos, uma fotografia confusamente escura e a tentativa de fazer com Poe o mesmo que Guy Ritchie fez com Sherlock Holmes… mas só a tentativa mesmo.

Além de Cusack não passar nem perto da presença de Downey Jr. como o detetive inglês, toda personalidade é completamente forçada dentro dessa figura sombria e meio mórbida que se forma por meio de desculpas estranhas como as sequencias onde o escritor resolve beber de graça e até quando trava uma disputa “intelectual” com o pai de seu interesse amoroso (Brendan Gleeson). McTeigue permite então que seu protagonista vague por meio desse charme com respostas rápidas e prolixas (assim como os textos rebuscados do autor), mas acaba apenas criando esse cara esquisito, que para no meio da rua para cutucar um animal morto e, mais tarde, procura “dissecar” o significado do amor dentro de um coração humano.

Vazio e sem significado, o Poe de McTeigue apenas anda por essa trama e é obrigado a enfrentar seu algoz quando sua amada (Alice Eve) é raptada por ele e deixando então que O Corvo se torne uma corrida contra o tempo. Pior ainda, na tentativa de seguir por esse filme de serial killer, o roteiro de Bem Livingston e Hannah Shakespeare (que até onde eu sei, para a sorte de seu legado, não tem ligação com o escritor inglês) nem sequer cria um cenário minimamente interessante onde o assassino, no final das contas, possa ser mais que um ou dois personagens, já que todos outros criam álibis irrefutáveis com poucos segundo de tela, o que acaba tornando o ritmo do filme chato e arrastado, já que é impossível não desconfiar de onde aquilo tudo pode chegar.

E para os fãs do autor que esperam, talvez, qualquer tipo de referência inteligente à suas obras, a decepção é maior ainda, com tudo sendo mastigado e citado como “dica” do assassino. Assim como, em nenhum momento, o escritor é tratado com a menor profundidade (na verdade, seu tempo de tela em relação ao do policial vivido por Luke Evans, poderia até torná-lo um coadjuvante, o que talvez nem fosse ruim, já que tal estrutura funcionou perfeitamente em três Piratas do Caribe). Não existe motivação, nem lembrança de que qualquer coisa tenha acontecido e depois se tornado um pedaço de sua obra ou de sua mítica, apenas aquilo que está sendo visto. Talvez, como se o próprio Leonardo Da Vinci fosse o personagem principal de O Código Da Vinci e ele não precisasse ficar remoendo o que lhe fez tomar essa ou aquela decisão para alguma obra sua.

Lembrando mais uma vez do Sherlock Holmes de Guy Ritchie, McTeigue faz exatamente o que seu companheiro de profissão mais tentou fugir em ambos os filmes do personagem de “Arthur Conan Doyle”: se contentar com a imagem clássica. Cusack realmente se torna parecido com a imagem mais conhecida do autor, do cabelo ao olhar baixo, mas falta para o espectador receber em troca mais que apenas aquilo que estava esperando. Falta talvez que esse Edgar Alan Poe não seja simplesmente um retrato óbvio e entediante daquilo que todos esperam, ainda mais com uma oportunidade tão adequada quanto essa de perseguir os últimos momentos do escritor que, realmente, foi encontrado em estado moribundo em uma praça depois de sumir durante dias.

O Corvo então é um desperdício, tanto em termos narrativos quanto visuais, já que, ainda por cima, mesmo se mostrando por vezes um filme de ação nem ao menos empolga nesses momentos e talvez só sirva para despertar o interesse de quem não conhece a obra do autor e acabe em busca dela, por que, como cinema, “nunca mais”.


The Raven(EUA/Hun/Esp, 2012) escrito por Ben Livingston e Hannah Shakespeare, dirigido por James McTeigue, com John Cusack, Luke Evans, Alice Eve, Brendan Gleeson e Kevin McNally.


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