O Compromisso de Hassan | Algumas pessoas são o que são

O Compromisso de Hassan | Algumas pessoas são o que são


O Compromisso de Hassan é lindamente fotografado por Özgür Eken (colaborador habitual do diretor), e com razão: as tomadas evocam decisões humanas sob um prisma da natureza de cada ser. Algumas pessoas são o que são. Não importam as circunstâncias, elas sempre estarão acima das outras.

E está errado? Dentro do espectro de decisões humanas nesse filme a resposta é não. Hassan e sua mulher recebem bençãos e ao mesmo tempo conduzem seus negócios como quem cuida pessoalmente de cada pomar, colhendo cada fruto de suas conquistas. Dentro do jogo de influências humanas eles são os espertos que se aproveitam do “status quo”, o que não apenas escancara a ineficiência, ingenuidade e incompetência dos outros indivíduos, mas das próprias instituições democráticas.

Mas no começo não é assim. Vemos Hassan conversando com um engenheiro que vem inspecionar e avisar aos donos das terras que uma torre de energia passará por cima de suas plantações, tornando-as improdutivas. Parece que começa uma daquelas histórias sobre a luta contra a injustiça, mas o filme inteiro é para inverter nosso ponto de vista, nos fazer pensar sobre o poder da narrativa, conforme Hassan passa a perna em tudo e em todos. E com lágrimas nos olhos ainda por cima.

“Pessoas dependem dessas plantações de tomates”, ele diz ao engenheiro. Não é mentira. E a história ganha ares trágicos conforme as transações ocorrem, e a troca de favores e serviços adquire um tom amargo. Os pesadelos de Hassan indicam que ele se sente culpado ou temeroso que sua hora chegue? É a poesia da ambiguidade que atinge essa narrativa conforme o diretor turco Semih Kaplanoglu nos brinda com tomadas de tirar o fôlego, cheias de cor, saturação e significado.

E quando exige, o filme fica de um nublado imperial, opressor, de nuvens que nunca mais sumirão. Tudo depende do momento e o filme ganha uma coleção de momenta, ou seja, vários “momentums” (assim mesmo, do Latim), com um ritmo mais lento que o desejável, à espera que um espectador mais lerdo entenda o subtexto, que não é simples nem direto, mais por pecado do diretor (e roteirista) do que pelo estilo, já beneficiado na estética (e deveria ficar assim).

O passado de Hassan em sua infância, descansando na sombra enquanto seu irmão mais velho se esforça, explica sua posição privilegiada no futuro? É um comentário social pertinente, ousado, provocador. A árvore é o símbolo dessa época e do seu compromisso com a verdade. E é gostoso confabular com os próprios botões se é que existe esse compromisso.


Bağlilik Hasan” (Tur, 2021), escrito e dirigido por Semih Kaplanoglu, com Umut Karadag, Filiz Bozok e Gökhan Azlag.


O filme faz parte da cobertura da 45° Mostra de Cinema de São Paulo

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