O Bem Amado

Idem (Bra, 2010) escrito por Claudio Paiva e Guel Arraes, dirigido por Guel Arraes, com Marco Nanini, Maria Flor, Caio Blat, José Wilker, Tonico Pereira, Andréa Beltrão, Drica Moraes, Zezé Polessa e Matheus Nachtergaele

por Vinicius Carlos Vieira

Parece clichê, mas é muito difícil mesmo escrever sobre esse cinema “popular” do Brasil e se abster daquele velho ranço “televisivo” que persegue cada grande produção assinada por algum nome vindo da teledramartugia. “O Bem Amado” se enquadra nisso, e o pior, sem parecer perceber o quanto isso é nocivo para ele próprio.

Mas não é só por nascer de uma adaptação de uma novela (e depois de uma série) que esse novo filme de Guel Arraes é fadado a essa linguagem equivocada, que piora ainda mais em uma espécie de falta de vontade do próprio diretor em fugir disso (coisa que já se mostrou capas ao ficar à frente de seu “Lisbela e o Prisioneiro”, portanto, sendo injusto acusar toda sua carreira de tal falha), a começar por uma estrutura canhestra que não parece perceber que está fazendo um filme, todo resto vai pelo mesmo buraco.

O roteiro demora para encontrar o real conflito da trama, assim como para colocar os personagens em suas posições e se esquece completamente de amarrar algumas tramas, esquecendo que essa multiplicidade de tramas, da qual a novela sobrevive, não cabe no cinema. É quase impossível ver qualquer ligação, dentro do resto da trama, do romance entre a filha de Odorico Paraguaçu (Maria Flor) com o jornalista da cidade (Caio Blat), que se resume a exatos quatro encontros e faz de suas presenças algo totalmente sem importância.

E falando em importância, na verdade nada tem muita a não ser a presença do prefeito de Sucupira, vivido agora por Marco Nannini, que bem verdade, dá um show, graças a um texto inteligente que lhe cai muito bem (ainda mais por estar extremamente à vontade no papel graças a uma peça que vem fazendo com o mesmo personagem), mas que deixa uma impressão de monólogo durante todo filme, já que é como se todos a sua voltam se sentissem obrigados a ficar a postos como manequins enquanto ele cita suas longuíssimas linhas de diálogo, o que prejudica totalmente o ritmo do filme e não deixa talentos como de Matheus Nachtergaele e Andréa Beltrão, em papeis bem pertinentes para trama, terem espaço e fazerem pouco quando em cena, afastando-os definitivamente de “roubarem” o filme de Odorico.

O mais interessante é perceber o quanto Arraes não controla nada a sua volta, desde seus extras, constantemente posicionados sem a mínima naturalidade, quanto ao próprio elenco, duro e artificial, como se posassem para alguma peça publicitária, tudo isso sem conseguir fazer com que seus diálogos sejam minimamente falados, já que parecem a todo o momento estarem sendo recitados ou lidos em alguma dália. Mas tudo isso ao mesmo tempo que, em alguns momentos, principalmente no começo do filme, o diretor parece se aventurar em um ou outro ângulo mais interessante (como por cima do sino, ou no alto da rua, dividindo as duas multidões), o que até dá uma certa esperança, mas logo afunda.

“O Bem Amado” ainda naufraga terrivelmente em criar um clima de comédia no filme, optando por um riso mais que forçado e com uma “punch line” a cada fim de frase, daquelas que deixariam a “Praça é Nossa” com orgulho, contando ainda com mais um monte de gags sonoras que talvez venham no lugar daqueles risos de auditório ou da virada de bateria. Tudo, compondo mais ainda esse desastre técnico, que parece não saber a diferença entre linguagens (olha ela aí de novo). Que não percebe o quanto o espectador do cinema não precisa ser “lembrado” por nenhuma musiquinha ou barulhinho para dar alguma risada, já que o texto por si só faria esse trabalho (ainda que não faça).

O filme ainda sofre com uma falta de montagem, onde as cenas parecem suceder-se sem ligação, como se não tentassem posicionar seus personagens naquela trama com ações, mas sim cortassem para mais um diálogo entre dois personagens (clichê, mas exatamente o que uma novela faz).

Mas talvez seja fácil acusar o maior defeito de “O Bem Amado” por ser “televisivo”, já que isso não seria um defeito por si só, podendo ser defendido como uma “escolha estética”, o problema aqui é não perceber o terreno que está pisando, optando por decisões que funcionariam durante uma novela, mas que falham aqui por não se tratar de uma mesma linguagem, um problema que não assola a produção nacional, como muito ainda tem mania de gritar aos quatro cantos, mas sim, um que está enraizado nesse gênero de cinema brasileiro que só parece interessado em seus números nas bilheterias. Um defeito que faz de “O Bem Amado” um exemplo (a favor ou contra) que não simboliza o cinema desse país (ainda bem).

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