O Apocalipse Crítica

O Apocalipse | Deus escrevendo por linhas muito… mas muito tortas mesmo


Se Deus ¿escreve certo por linhas tortas¿, O Apocalipse, nova adaptação do best seller cristão Deixados Para Trás, é a prova que ele também pode escrever garranchado e inelegível através das mesmas linhas tortas. E para variar, ninguém melhor do que Nicolas Cage para liderar (ou pilotar) esse desastre.

¿Pilotar¿, pois no filme ele é um piloto de avião que se vê às voltas com o ¿famoso¿ arrebatamento, acontecimento bíblico onde parte da população do planeta desaparece (em direção ao céu), enquanto quem sobra fica com a previsão de ter que encarar alguns dias sinistros.

No filme, Cage ainda tem uma filha, Chloe (que não se pode usar ¿interpretada por¿ antes de citar o nome da atriz Cassi Thomson), que em um visita à família acaba encarando o sumiço das pessoas em terra. O que inclui a mãe e o irmão, deixando-a somente com o pai e o, expressamente recente, novo amor (conheceu no aeroporto), Buck Williams ( o ¿meio famoso¿ Chad Michael Murray), um escritor que está embarcado no mesmo avião do pai dela.

E tudo isso para chegar a uma única conclusão: Deus não gosta de esteriótipos. Deus também não gosta muito da classe econômica, então O Apocalipse é apenas sobre a primeira classe desse voo em questão.

Uma viciada em cocaína, um maluco que acredita em Ets, um piloto que trai a mulher, um ateu (o tal escritor galã), uma mulher que roubou a filha, um milionário sem escrúpulos e um jogador inveterado (que ainda por cima é mal caráter e anão), está aí o futuro da espécie: alguns pecadores em geral. E isso sem contar o muçulmano com cara de terrorista, que… bom… só ficou por aqui mesmo por acreditar em um Deus diferente.

E se só esse parágrafo não é suficiente para catequizar o espectador como um índio em troca de espelhos, é bom lembrar ainda que ao menor sinal de sumiço de parte da população mundial, você ainda pode se transformar num maluco arruaceiro, que rouba o dinheiro dos arrebatados, invade lojas e leva embora televisores, briga no trânsito e o que mais ¿der na telha¿ desses selvagens. Afinal, ou você é uma carola que fica andando com sua bíblia embaixo do braço (ou um monte de crucifixos e relógios com salmos) ou você está fadado a o que quer que aconteça depois que os ¿puros¿ subam aos céus.

O Apocalipse Filme

O Apocalipse continua então em um caminho cheio de equívocos narrativos e técnicos, tanto em termos de um cristianismo exagerado (e até ofensivo), quanto nas decisões do roteiro e na direção do estreante (ex-dublê) Vic Armstrong. E isso passando por discussões sobre Deus no meio de saguões e um punhado de soluções para o ¿desaparecimento¿ que demonstra que a imbecilidade também não tem passagem para o paraíso. Não existe sequer um momento em que se desconfie que a reação dessas pessoas a esse sumiço soe minimamente real. Somente o esforço ¿sutil¿ de separar os pecadores.

E falando em ¿soar¿, ainda que Nicolas Cage se especialize em desastres, seu cachê ainda deve ser alto, pois além de não sobrar dinheiro para nenhum efeito minimamente interessante e nem elenco minimamente competente (o que é bom para Cage, que acaba se destacando diante tanta ruindade), deve ter sobrado menos ainda para Jack Lenz compor uma trilha sonora que (minimamente) combine com qualquer momento do filme. Ou talvez as composições originais tenham sido arrebatadas.

Enfim, e se o texto parece ¿tocar¿ demais nesse teor religioso é, justamente, por que o filme não parece saber fazer mais nada a não ser isso: apontar o dedo na sua cara pecadora. E se o objetivo era conquistar (vulgo catequizar mesmo) alguém, o resultado é contrário, quase cômico a cada momento que fala de Céu, paraíso, Deus ou simplesmente coloca Nicolas Cage em cena.


¿Left Behind¿ (EUA, 2014), escrito por Paul Lalonde e Jonh Patus, a partir do livro de Jerry B. Jenkins e Tim LaHaye, dirigido por Vic Armstrong, com Nicolas Cage, Lea Thompson, Chad Michael Murray, Nicky Whelan e Cassin Thomson