Nostromo | Crítica do Filme | CinemAqui

Nostromo | Acaba muito antes de terminar


Nostromo é aquele filme que começa bem demais para ser verdade, e no meio da história ela acaba. Mas o filme não. E daí você já saca qual é a do diretor: recebeu um dinheiro para filmar aurora boreal, foi filmar alguém vivendo sozinho e nada aconteceu. Só que no final deu apenas meia-hora de rolo gravado… “bom, bora filmar mais meia-hora então… e mais meia-hora depois… agora sim estou pronto para os festivais!”.

Talvez isso tenha passado na cabeça do diretor suíco Fisnik Maxville. E esse é um parágrafo bem-humorado sobre um filme não tão bom, mas que possui algumas virtudes estéticas admiráveis. Consequentemente, algumas palavras sobre ele.

Muito provavelmente isso demonstre que Maxville deveria se manter ainda nos curta e média-metragens, mas sua técnica de captura da atmosfera de um lugar é fantástica. A trilha sonora e os sons que ele escolheu para situar-nos nessa aventura de outro mundo é incrível. Somos levados para uma jornada que nenhum de nós provavelmente faria na vida real. Maxville nos transporta direto para a ação quando vemos, em primeira pessoa, a caça de um alce. E o animal abatido será desmantelado pelos humanos que o caçaram. É um daqueles momentos únicos, que você gostaria de ver pessoalmente. Mas é muito melhor com a atmosfera construída pelo diretor.

Para isso ele monta flashes do cotidiano, evocando o sobrenatural e a estranheza. Movimentos involuntários emergem. Enquadramentos desajeitados. Tudo vale para o espectador nunca saber o que está acontecendo em detalhes na vida de Olivier, esse francês que decidiu ir morar em uma pequena ilha no Canadá. Sozinho. Então três visitantes chegam ao local, o que altera um pouco a dinâmica. Acompanhamos parte de sua rotina de caça, pesca e manutenção da sobrevivência mínima em uma floresta boreal cercada de água. É no mínimo diferente de se ver, se você nunca viajou para tão ao norte.

Porém, apenas esse maravilhamento sozinho não basta. Entrevistado, aprendemos os anseios de Olivier desde jovem em ir morar no mato. Admiramos sua força de vontade indiretamente, e ficamos gratos por algumas imagens cruas capturadas no filme sobre a rotina rústica dessa vida. E após isso, meia-hora depois, a história reverbera por mais uma hora antes de terminar. A sensação é que o diretor aguarda que algo inacreditável ocorra. Mas não há nada, além do (extra)ordinário daquele lugar e suas noites maravilhosamente estreladas e esverdeadas.

Esse é o presente do filme, que no fundo vem das lentes e do uso de luzes e filtros de Jules Guarneri, o diretor de fotografia.

Nostromo é uma referência, quero acreditar, à nave do filme Alien: O Oitavo Passageiro… tudo bem, eu sei que não é, já que a expressão italiana é mais antiga, mas se refere a viagens e companheirismo de jornada. Eu quero acreditar na versão sci-fi porque ela e mais estilosa e harmoniza com a estética desse filme que nos causa estranhamento em viver em um lugar muito diferente do que estamos acostumados. Só que no mesmo planeta. É de certa forma mágico. Mais mágico que o próprio filme.


Nostromo” (Sui, 2021), escrito e dirigido por Fisnik Maxville.


O filme faz parte da cobertura da 45° Mostra de Cinema de São Paulo

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