Nosso Lar

Idem (Bra, 2010) escrito e dirigido Wagner de Assis, a partir do livro de Chico Xavier, com Renato Prieto, Fernando Alves Pinto, Rosane Mulholland, Inez Viana, Rodrigo dos Santos, Werner Schunemmann e Othon Baston

por Vinicius Carlos Vieira

Talvez seja um pouco simplista demais olhar para “Nosso Lar” e ver apenas o livro escrito (ou psicografado como cada um preferir) por Chico Xavier, ainda mais quando a adaptação chega aos cinemas depois uma massificada campanha de marketing nos cinemas (posters e trailers) e uma promessa de ser o filme mais caro que o Brasil já produziu, quesitos que pouco tem a ver com doutrinas e ensinamentos, mas que são o cerne do cinema blockbuster moderno .

Portanto, o novo filme de Wagner de Assis, precisa antes de qualquer coisa ser encarado como cinema, e nesse caso ele falha, muito provavelmente até por que, nem ele nem ninguém envolvido com o filme, pareça preocupado em ser mais que uma versão em carne, osso e alguns pixels do livro, coisa que funcionará perfeitamente para os simpatizantes, interessados ou seguidores das idéias, mas só para eles mesmos.

Primeiro de tudo, o roteiro do mesmo Assis se esquece completamente de focar toda trama em algum alvo. É lógico que, em linhas gerais, a trama conta a história pós-vida do médico André Luis ao chegar nesse lugar chamado Nosso Lar, e o problema é exatamente esse, já que é só isso mesmo que o filme se dispõe a fazer. Ainda que por um lado se possa enxergar o esforço do protagonista por rever sua família, ou até alguns ainda possam apontar o livro sendo escrito com esse alvo, bem verdade é que, em nenhuma dessas opções, o espectador vai conseguir ver aquele lugar a ser alcançado.

Não só por não existir um vilão ou algo parecido, já que provavelmente seria no mínimo incômodo algo tão concreto nesse sentido, mas sim pela ausência total de barreiras a serem transpostas, como se todos os problemas do protagonista pudessem ser resolvidos com um discurso para levantar sua auto-estima e uma cara de pensativo do ator. Uma estrutura que funciona em um livro que está apenas interessado em mostrar o funcionamento de um mundo (não li o livro, portanto apenas suponho isso), mas não segura a atenção de quem está ali apenas para ver um filme.

E seria inocente achar que um filme de vinte milhões de reais, cheio de efeitos especiais e computação gráfica tenha sido feito apenas para a comunidade espírita/kardecista, já que eles sim, irão se divertir com esse jeito didático literário da produção, que emenda um ensinamento atrás do outro e se esquece de amarrar tudo em uma trama, ainda mais quando todos os diálogos parecem prolixos, burocráticos e pouco eloqüentes, já que tudo parece sair da bocas dos personagens sem um pingo de sentimento, mas sempre envernizados  pela nata da língua portuguesa.

Tudo isso aparece mais ainda já que “Nosso Lar”, por outro lado, parece completamente preocupado com seu visual, mostrando em todos seus pixels onde cada centavo dos muitos milhões foram parar. E ainda que em certos momentos acabe se perdendo em uma contemplação exagerada e narcisista do quanto todo seu visual ficou agradável, principalmente com seu pé na ficção científica, isso não atrapalha diante do capricho com que tudo parece estar ali, criando um mundo perfeito, que funciona mais ainda para compor toda narrativa, já que, durante todo filme, o personagem perambula, tanto pelo mundo real (carnal, ou seja lá como for que a doutrina chame), como pelo Umbral (uma espécie de purgatório) e por fim pelo Nosso Lar (algo como o céu), e graças a uma direção de arte bem inspirada, todos os três lugares parecem conviver em harmonia, ao mesmo tempo que se destacam em oposição. Tudo muito bonito, mas ainda, infelizmente, muito pouco para salvar o filme do desastre.

Do mesmo jeito que o próprio filme não consegue desvencilhar a crença do produto cinematográfico, criticar seu resultado como cinema, pode ser confundido como uma crítica ao próprio espiritismo, coisa que em absoluto pode acontecer, já que seria improvável que algo tão frágil em seus alvos, como o filme, possa refletir uma doutrina que reúna tantas pessoas. Assim como, em ambos os casos, fica difícil para alguém de fora desse círculo, e que não crê em tais idéias, ser fisgado por todo clima, principalmente o da adaptação.

3 Comments

  1. Pingback: » Irmã Dulce
  2. imaginei que isso fosse acontecer pelo filme ser uma série initerrupta de ensinamentos que devem estar no livro… não li o livro, mas imagino que ele também não tenha uma linha narrativa clara, senão ela estaria presente (penso eu)….

  3. Concordo com você, quando afirma que o filme poderia ter sido mais embasado e mais explicativo, digamos assim, no que diz respeito ao aprendizado pós morte.
    “Nem ele ( Wagner de Assis) nem ninguém envolvido com o filme, pareça preocupado em ser mais que uma versão em carne, osso e alguns pixels do livro, coisa que funcionará perfeitamente para os simpatizantes, interessados ou seguidores das idéias, mas só para eles mesmos.” Na verdade não Vini, você como pessoa que convie comigo sabe que sou simpatizante e o enredo do filme por si só deixou muito a desejar, não só a mim, mas para outras centenas de simpatizantes das idéias; doutrina.

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