Ninguém Sabe Que Estou Aqui | Pequeno filme, grandes emoções


Nem todo pequeno filme precisa ter pequenas emoções. Ninguém Sabe Que Estou Aqui, novo filme da Netflix, é um pequeno filme chileno, mas que carrega nas costas uma carga enorme de emoções.

O filme é escrito e dirigido pelo estreante Gaspar Antillo, mas tem entre os produtores Pablo Larraíns, vencedor do Leão de Prata por O Clube e estabelecido em Hollywood depois de seu Jackie. Talvez do segundo venha a estabilidade para Antillo fazer um filme que não precisa se encaixar naquelas obrigações narrativas que o fariam ser um sucesso entre os espectadores. O intuito aqui é muito mais sensível.

O filme acompanha, na verdade, muito mais observa, Memo (vivido pelo americano de pai chileno, Jorge Garcia, que ainda vai ser lembrado por seu trabalho em Lost), um homem silencioso e que passa os dias com seu tio em uma ilhota, cuidando do couro de ovelhas e fugindo dos olhos de todos.

Memo na verdade não foi conhecido por sua carreira, já que “emprestava” sua voz para um ídolo mirim, pois, na época, a gravadora estava em busca de alguém com uma aparência melhor. O hit “Nobody Know I Am Here”, que impulsionou a carreira de Angelo (a “aparência), é também o retrato dessa situação onde Memo se mantém escondido. Seu autoexílio aos poucos vai sendo explicado, assim como um trauma que o empurra nessa direção, mas é o peso dessa situação que parece empurrar Memo para essa existência apagada e dolorida.

Antillo brinca com a ideia do sucesso dessa vida de cantor com Memo passeando por essas mansões enquanto os donos estão fora de casa. Quase como um fantasma dele mesmo, ninguém sabe de sua existência, ninguém sente sua presença e sua paz é poder perambular pela floresta com seus sonhos. Sua câmera parece se distanciar de Memo para não o constranger, apenas escuta seus passos pesados às suas costas.

Ninguém Sabe Que Estou Aqui é então esse filme de ritmo lento até quando a trama acelera, afinal, não quer se apressar, mas sim sentir, se permitindo até traduzir essas emoções com imagens que parecem dispersas, mas que servem como conforto para Memo, momentos onde ele não está sendo observado pela câmera. Um filme de olhares tristes e um protagonista que parece não saber que pode ser feliz. E mesmo quando ela “bate à sua porta”, no caso a presença de Marta (Millaray Lobos), Memo parece se fechar ainda mais sob seu casaco de chuva.

Memo aprende com Marta o quanto talvez possa ser ele mesmo, mas antes disso acontecer, ainda precisa enfrentar o seu passado. Antillo está interessado não no clímax, mas sim na transformação sutil de seu personagem. Portanto, não espere uma daquelas mudanças à la Hollywood, mas sim uma oportunidade de Memo encontrar a libertação em um clímax que lhe permite ser aquela pessoa que ele sempre quis ser. Mas isso não o faz se tornar um personagem diferente, mas apenas uma variação um pouco mais aberta daquele homem que ainda sente o peso de uma vida que o colocou nessa situação de pária.

Garcia tem um trabalho incrível como Memo, entende o clima do personagem e mantém essa tristeza e raiva que não tomam seu personagem de modo dolorido, mas sim parecem enfiá-lo no chão, sem mobilidade e arrastado. Ao mesmo tempo que entende o quanto seu Memo é livre quando consegue ser ele mesmo, criando uma leveza pura e cheia de sentimento. É fácil se emocionar com Memo, não com lágrimas, mas sim com a impressão de conseguir entender o que ele está sentindo.

Grandes emoções em um filme pequeno no tamanho, mas enorme nas intenções.


“Nobody Knows I´m Here” (Chl, 2020); escrito e dirigido por Gaspar Antillo; com Lukas Vergara, Vicente Alvarez, Jorge Garcia, Luis Gnecco, Millaray Lobos e Gastón Pauls


Trailer do Filme – Ninguém Sabe que estou Aqui

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