Ninfomaníaca - Volume 2 | Crítica do Filme | Cinemaqui

Ninfomaníaca – Volume 2

Ao ter sua conclusão adiada, o novo trabalho de Lars von Trier quase perdeu a essência de sua mensagem em sua primeira parte, correndo o risco frequente de utilizar uma abordagem misógina da sexualidade feminina. A complexidade da protagonista Joe, porém, conseguiu deixar claro que o dinamarquês pretendia, na verdade, discutir essa misoginia – algo que atinge o ápice em Ninfomaníaca – Volume II, que conclui a narrativa com excelência.

Mesmo sem contar com momentos tão memoráveis quanto o primeiro volume – como Joe (vivida na juventude por Stacy Martin e quando adulta por Charlotte Gainsbourg) e sua amiga seduzindo estranhos em um trem, o “clube” de garotas que preferem o sexo ao amor na escola ou o belo capítulo em preto e branco sobre o pai da protagonista -, esta segunda parte mantém a qualidade do primeiro ao focar-se mais nos efeitos que a ninfomania de Joe tiveram nela e, assim, nos mostrando como ela chegou ao ponto de se considerar “um ser humano ruim”.

Vemos a garota, aos 12 anos, experimentar um orgasmo espontâneo ao deitar na grama e observar o céu, enquanto suas colegas conversam à distância. O isolamento de Joe ilustra o distanciamento que ela sentirá pelo resto da vida em relação ao prazer sexual – afinal, embora ela declare com orgulho que é diferente das outras mulheres em um grupo de apoio a viciadas em sexo, afirmando, ao contrário das companheiras, buscar puramente o prazer do ato, e não validação através dele, o sexo é, para Joe, uma válvula de escape do vazio que sente. Depois de não conseguir mais atingir o orgasmo (fato que encerrou o primeiro volume), ela vai ao extremo para recuperar a droga de que seu corpo tanto precisa e, assim, envolveu-se com um sádico profissional (Jamie Bell, apropriadamente frio e distante) e conhece L (Willem Defoe) e P (a estreante Mia Goth, que transforma sua personagem em uma jovem complexa e imprevisível), com quem ela utiliza o sexo de uma forma calculista e buscando o lucro.

A relação entre Joe e seu ouvinte, Seligman (Stellan Skarsgård) também é aprofundada. Descobrimos que ele é assexual e que mantém um interesse puramente técnico na natureza do sexo e da sexualidade, e a narradora percebe que aquele senhor não demonstra a excitação que outros homens que ouviram suas histórias sentiram. Ele considera-se, portanto, acima das noções contorcidas da sociedade em relação à sexualidade. Mantendo o teor metalinguístico do primeiro volume, as discussões entre Joe e Seligman frequentemente refletem as reflexões do próprio cineasta e, até certo ponto, do espectador – depois de narrar seu encontro com dois irmãos negros, por exemplo, ela utiliza um termo antiquado e hoje considerado ofensivo, que Seligman declara que ela “não deveria usar”. Segue-se uma breve discussão sobre o que significa a noção de que podemos ou não podemos utilizar certas palavras – Joe acredita que isto fere a liberdade de expressão, Seligman percebe que esta é uma maneira (bem simples, diga-se de passagem) de preservar as minorias. Eles apenas informam seus pontos de vista e, ao discordarem, seguem em frente, e Joe chega a dizer que esta foi “a digressão mais fraca” até agora – o que também se aplica ao próprio roteiro de von Trier que, portanto, parece perceber que aquele assunto surgiu deslocado (e desnecessário; não cabe àqueles personagem – ou a von Trier – decidir como minorias das quais eles não fazem parte devem reagir a uma palavra).

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“A sociedade não tinha espaço para mim, e eu não tinha espaço para a sociedade”, declara a protagonista. Em um mundo em que a sexualidade feminina é vista com maus olhos não importa a forma com que seja expressada, Joe viveu a vida inteira dominada pela culpa que sentia ao buscar o sexo com tanta frequência. Sim, ela é viciada – esquecia-se completamente do filho, por exemplo, quando tinha necessidade de sua droga e, em abstinência, apresentou os mesmos sintomas de um dependente químico -, mas será que ela teria chegado àquele ponto se não tivesse percebido, tão cedo, que sua sexualidade era algo condenável? Na juventude, ela não se sentia culpada, mas sabia como os outros a viam.

A insistência de von Trier de ilustrar cada imagem e metáfora dita por seus personagens continua cansativa e ocasionalmente eficiente – aqui, por exemplo, ele acertadamente insiste em mostrar a Transfiguração de Jesus, já que a comparação de uma imagem religiosa com algo relacionado à sexualidade feminina será visto por muitos como uma blasfêmia. Da mesma forma, o cineasta acerta ao trazer Joe atormentada não apenas por sua sexualidade, mas principalmente pelo que aquilo a levou a fazer, ou a ponto de fazer.

[recomendamos que apenas quem já viu o filme leia os parágrafos seguintes, que discutem a conclusão do segundo volume] Chegamos, assim, ao brilhante encerramento de Ninfomaníaca. Depois de declarar a Joe que ela não se sentiria como se sente – e não seria vista pela sociedade com o desprezo que ela sente do mundo – se fosse homem, pois a sexualidade masculina (heterossexual, claro) jamais é condenada, Seligman se estabelece como a voz de von Trier no longa, explicando sua mensagem com clareza para que não restem dúvidas de suas intenções (e para que o público misógino não tente usar seu longa como forma de condenar ainda mais a sexualidade feminina). Logo em seguida, porém, o dinamarquês insere um fato (não dá para chamar de reviravolta; não é totalmente inesperado – certamente, não pelas espectadoras) que dá à narrativa uma melancolia ainda maior ao filme. O homem que cuidou de Joe, que ouviu tudo o que ela tinha para dizer sem julgamentos, o homem virgem que tem um interesse puramente técnico no sexo, que havia acabado de fazer um discurso feminista sobre a sexualidade daquela mulher, tenta estuprá-la durante a noite. Apenas o tiro de sua arma o faz parar.

Ao ser recusado, ele declara: “Mas você… você fodeu milhares de homens”. Como pode uma mulher viciada em sexo que esteve com tantos homens recusar alguém? – ele pensa. Com o pênis flácido ao subir na cama de Joe, ele não descobriu uma inesperada excitação, ou um apego pela mulher – ele apenas ficou curioso, e achou que era dever dela satisfazer sua curiosidade. Para Seligman, naquele momento, Joe era apenas um meio de conseguir o que ele desejava – não um ser humano, mas um objeto. O que Joe tanto temia quando chegou ao ponto de fazer, tirar a vida de alguém, torna-se realidade; mas, agora, ela não é condenada. Não foi resultado de sua suposta condição de ser humano ruim e pecador, mas uma forma de defender-se do homem que, depois de cuidar dela e ouvir sua história, chegou a conclusão de que ela com certeza não o recusaria. Um final poderoso, adequado e que, encerrando uma excelente obra, faz de Ninfomaníaca um trabalho inesquecível.


“Nymphomaniac” (Dinamarca/Bélgica/França/Alemanha/Reino Unido, 2013), escrito e dirigido por Lars von Trier, com Charlotte Gainsbourg, Stacy Martin, Stellan Skarsgård, Mia Goth, Shia LaBeouf, Jamie Bell e Willem Defoe.


Trailer do filme Ninfomaníaca – Parte 2