Niède | Tropeça no quanto é promissor


No começo de Niède há umas batidas bacanas na trilha sonora, batidas ocas, que não conseguimos discernir de onde poderiam vir, exceto de materiais muito primitivos. Essa batida já começa o filme evocando tempos tão distantes na cronologia humana que sequer ousamos imaginar o que o homo sapiens fazia até então.

Ainda assim, a naturalista e paleontóloga Niède Guidon afirma com certa convicção que podemos concluir através de pinturas rupestres que não há muita diferença entre desenhos de homens palitos com um museu de arte moderna, e nisso podemos concordar. Aliás, digo mais: a arte moderna hoje em dia é tão sem sentido, que rabiscos de homens palitos de milênios atrás possuem muito mais significado. Além de podermos chamar de arte sem medo de errar.

Este é um documentário que abrange quatro décadas do trabalho desta arqueóloga, que passou a maior parte da vida cuidando da preservação e exploração de sua maior descoberta: uma área na Serra da Capivara com rastros humanos que datam de muito antes de quando se achava que povos da Europa migraram para as Américas. Essa descoberta feita em uma região rochosa do Piauí coloca abaixo todas as teorias eurocentristas e cria novas hipóteses onde a migração deve ter ocorrido de mais de uma forma diferente.

E este, como documentário, também é um trabalho de restauração dessa história, que se mistura com a vida de Niède e do povo que sobrevivia na região, oriundos tanto do fim da escravatura quanto da matança dos índios na região. A aventura de arqueologia começa na década de 60, logo após os militares tomarem o poder, mas as descobertas e as decisões sobre o sítio arqueológico se arrastaram até os tempos atuais, e o filme acompanha isso até o último segundo.

Podemos dizer que a restauração dessa história foi feita com sucesso. Acompanhamos filmagens da época quando foram descobertos os primeiros vestígios de fósseis de homens e animais (incluindo um tigre dentes de sabre) e a descoberta de fogueiras datadas de quase 30 mil anos atrás. O material disponível é vasto e a condução da narrativa atual, que segue após os registros do passado, sofre pela falta de foco.

Isso porque Niède (o filme) possui o pecado capital de todo documentarista em não querer deixar nada de fora. Não me leve a mal: o trabalho de resgate do passado é louvável e sem preço, mas sua capacidade de contar uma história recente está muito aquém da própria arqueóloga do filme. Enquanto no passado Niède conseguia extrair informações valiosas com um pouco de carvão, o filme de Tiago Tambelli insiste em narrativas convencionais que nada acrescentam, como acompanharmos Niède ir e vir de carro aos diferente locais relacionados com a história ou repetir as mesmas imagens das figuras rupestres quinhentas vezes.

Outro problema de formato é que o filme possui um óbvio viés social que prejudica o seu registro científico. Há especulações demais sobre nada, pois não se tem informação social nenhuma sobre os achados, e dados de menos, minimizando o trabalho pós-escavações em detrimento de um suposto filme-homenagem a esta mulher.

Mas o pior defeito de Niède é mesmo o seu inchaço. Quando pensamos que o filme está prestes a acabar ele se estende por inexplicáveis 30 minutos que não acrescentam praticamente mais nada ao filme. Sequer há notícias das últimas descobertas sobre as migrações para o continente do passado e como essas evidências se unem com a história que estamos vendo. Se isolando em si mesmo, o filme se torna pobre, limitado, anti-científico.

O que é uma pena para um conteúdo tão promissor. É raro vermos filmes sobre ciência sendo praticada em terrar tupiniquins, ainda mais sobre conteúdo local. Vendo este filme começa a ficar mais claro porque isso não acontece.


“Niède” (Brasil, 2019), dirigido por Tiago Tambelli, com Niède Guidon.


Trailer – Niède

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