Não Me Abandone Jamais

Não me Abandone Jamais

Não que seja impossível falar de Não Me Abandone Jamais sem estragar nenhuma surpresa do filme, mas talvez seja difícil falar bem dele sem deixar que nenhuma pontinha de Spoiler em alguma linha, e não por que a adaptação do livro de Kasuo Ishiguro (que também é autor da obra que deu origem ao Vestígios do Dia) dependa dessa surpresa, mas sim, por que é exatamente o modo como ela é tratada que mais pula aos olhos (portanto, não garanto que nada seja revelado nas próximas linhas).

Para começo de conversa, o roteiro de Alex Garland (que escreveu a obra original de A Praia e depois voltou a trabalhar com o diretor Danny Boyle nos roteiros de Extermínio e Sunshine) parece ter essa mesma impressão de que o interessante não é esconder uma reviravolta, mas sim tratá-la como se ela não existisse. Só isso já mantém o público que entrar na sessão de Não Me Abandone Jamais grudado naquela história, que começa em um colégio interno na Inglaterra, onde seus alunos vivem sobre um restrito regime que os impede, até mesmo, de pisar fora daqueles muros (contando até com um tipo de terror psicológico para tal coisa).

Na verdade, esse internato vive nas memórias da jovem Kathy (vivida de forma sensível e frágil por Carey Mulligan), que se recorda desses tempos enquanto observa o amigo Tommy (Andrew Garfield em mais um trabalho na medida) deitado em uma sala de operações, prestes a ser sedado. Até esse momento, com poucos minutos de filme, o diretor Mark Romanek (que dirigiu o subestimado Retratos de uma Obsessão, e parece que vai ter o mesmo destino aqui) já fez questão de contar a todos sobre uma sociedade utópica onde as doenças foram todas curadas, citar expressões como “assistentes” e “doadores” com total desenvoltura e não fazer questão nenhuma de esconder a enorme cicatriz no peito de seu personagem deitado na maca. Se “para bom entendedor, meia palavra basta”, ele expõe uma frase inteira.

Se isso não fosse pouco, logo aquelas crianças todas passam suas espécies de pulseiras de identificação em uma pequena caixa que apita a cada contato, tudo isso por que, com ou sem essa reviravolta, que vem com uma tutora nova na escola, Não Me Abandone Jamais tem personalidade para ser ele mesmo: um filme sutil, uma ficção científica que extrapola o gênero, que parece muito mais preocupada em mostrar que, diante do inevitável, nenhum tempo parece ter sido o bastante.

É com uma habilidade narrativa impressionante que Romanek caminha com esse trio de personagens (o casal do começo, mais uma amiga em comum, vivida por Keira Knightley, que acaba sendo o elo fraco das três atuações) desde suas infâncias até o final de suas vidas, talvez buscando uma segunda chance, como a que aquele barco encalhado no meio da praia, que eles vão visitar, busca. Aquele momento em que a maré subirá e lhes trará a esperança de que o fim não está tão próximo e os arrependimentos ainda poderão ser corrigidos, como a rota da embarcação.

Por outro lado, Não Me Abandone Jamais, ao invés de cair em um melodrama fácil e exagerado, prefere tomar um caminho muito mais difícil, um verdadeiro soco no estômago ao mostrar que, diante daquela verdade cruel, nenhum deles consegue esboçar nenhuma reação a não ser aquela que lhes foi descrita como destino. Não tirando deles uma falta de perspectiva, mas sim discutindo até onde todo esse acúmulo de conhecimento, de experiências e de vida é tão importante quando tudo se resume a um final sem fuga. Um aparente pessimismo que permite, justamente, que Romanek e o roteiro de Garland possam mostrar que o importante não é essa bagagem, mas sim o que se fará com ela na hora de conseguir o tal “adiamento” que lhes dariam mais uma oportunidade. Mesmo que, no final das contas, fique claro que o “adiamento” sempre esteve lá, só não conseguia ser enxergado.

Por outro lado, Romanek também faz questão de apontar sua câmera para o fim da vida (não como a tradução nacional fez como morte, mas sim como no original “complet”, de completar) naqueles olhos inocentes, que talvez não tenham reação diante dessa inevitabilidade quando a descobrem, mas que, aos poucos, são esmagadas por esse fardo, por mais que não vejam outro jeito de “completar” suas funções. De aceitar seus destinos.

Não Me Abandone Jamais é frágil e transparente como uma taça de cristal, que é preenchida com um bom vinho e que, mesmo demorando em ser tomada, assim que se faz, é fácil perceber que nunca é tarde, e o importante é tê-lo feito. Talvez igual a mais um monte de coisas.


Never Let Me Go (EUA, 2010), escrito por Alex Garland (a partir do livro de Kazuo Ishiguro, dirigido por Mark Romanek, com Keira Knightley, Carey Mulligan, Andrew Garfield e Charlotte Rampling.


3 Comments

  1. Acho que só eu, achei esse filme um tremendo meia boca, nada mais!

    Roteiro surreal, situações que nos deixam cheios de dúvidas, e comos e porquês??? muito elenco, pra pouco roteiro!

  2. Belo filme, pena nao terem lutado contra essa terrível imposição que lhes foi dada. Gostaria de ter visto cenas revolucionarias, onde o tommy e a garota que narra o filme se rebelassem e quebrassem tudo, destruissem com essa organização que visava a destruição da vida deles em socorro de outras vidas. Odiei essa passividade dos personagens em não querer mudar isso, poxa, esperava que eles fugissem pra algum lugar, sei lá, enfim, se fosse eu nao entregaria nenhum dos meus orgãos, mesmo que forçado, iria beber ate estragar meu figado, fumaria todos os cigarros do mundo pra detonar meus pulmoes, mas nao entregaria um unico orgao em condições de ser usado!

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