Na Quebrada Crítica

Na Quebrada

Entre trancos e barrancos, Na Quebrada pode até ser apontado como meio cansativo na maior parte do tempo, assim como ter um problema crônico ao apostar em parte do elenco amadora demais, mas umaNa Quebrada Poster coisa não se pode tirar de Na Quebrada: sua enorme responsabilidade social.

A produção nasce então diante de um mosaico de pequenas histórias que passaram pelo Instituto Criar, uma entidade criada em 2003 pelo apresentador Luciano Huck que foca em desenvolver jovens em situação social precária por meio de cinema, TV e outras mídias. Na Quebrada porém não é um documentário, muito provavelmente por saber que o público geral de espectadores foge um pouco da realidade dos documentários.

Então se a ideia é esse esforço para aproximar mais ainda essas histórias incríveis e sensíveis do maior público possível, uma ficção cai como uma luva. E mesmo que o roteiro escrito por Marcello Vindicatto, Fernando Grostein Andrade e André Finotti por vezes acabe chateando, é apenas um tropeço dentro do esforço de criar esse panorama da periferia e de como vários caminhos completamente diferente podem se cruzar e acabar tomando rumos semelhantes.

O filme aposta nessas pequena histórias que se entrelaçam em algum ponto entre si, assim como esbarram no Instituto. Cada uma delas com um protagonista para puxar o rumo, mas sempre com a impressão de estar passando uma experiência que deu certo. Quase como se tentasse servir de espelho e inspiração para aqueles que acham que podem não ter oportunidade. O “calcanhar de aquiles” acaba sendo uma falta de objetivos mais concretos e imediatos, deixando o filme cair em uma lentidão meio desfocada.

E ai surge um outro ponto interessante, já que por mais que a direção de Fernando Grostein (que é meio irmão do próprio Huck) seja leve, soe extremamente profissional e muito bem colocada, na maioria do tempo fica refém de um roteiro pouco inspirado e de algumas atuações menos inspiradas ainda. Grostein, ainda que repita demais os planos para estabelecer o local de sua ação (estabilishing shots, nesse caso para compensar o aluguel do helicóptero) parece sempre em busca de um lugar próximo com sua câmera na mão, o que dá uma agilidade e um visceralidade a suas opções quase sempre sensíveis e acertadas. Mesmo quando tem em mãos um material humano tão fraco.

Na Quebrada Filme

A sorte então é que os maiores papeis acabam ficando com atores que estão bem longe de não darem conta do recado. Jorge Dias (vulgo filho do rapper Mano Brown) é uma surpresa agradável, emprestando uma baita naturalidade e profundidade ao personagem, o que fica mais evidente ainda quando contracena com o núcleo de presidiários e de traficantes, ambos claramente amadores.

Por outro lado, esse lado social é ainda mais fortalecido ao dar oportunidade a boa parte desse elenco amador, já que eles realmente são detentos que participam de um programa de teatro enquanto cumprem suas penas. Um realismo que não ajuda na qualidade do filme, mas com certeza desempenha seu papel.

E é justamente essa dicotomia que talvez seja o mais importante de Na Quebrada, pois ainda que não seja tecnicamente perfeito, não nega sua maior motivação ser, justamente, esse aspecto social. E por esse lado é inegável que o filme cumpre exatamente seu papel com uma baita responsabilidade.


Idem (Bra, 2014) escrito por Marcello Vindicatto, Fernando Grostein Andrade e André Finotti, dirigido por Fernando Grostein Andrade, com Daiana Andrade, Domenica Dias, Felipe Simas, Gero Camilo, Jean Amorim, Jorge Dias, Paula Cohen e Marcello Gonçalves


Trailer de “Na Quebrada”