Mundo em Caos tem uma ideia interessante que salva o filme

Mundo em Caos | Ideia interessante salva o filme


Enquanto nem mais muitos quadrinhos usam os balões de pensamento (invadiram aquele espaço quadradinho onde ficava o narrador), Mundo em Caos faz desse subterfúgio quadrinístico o grande detalhe de sua trama. Tudo bem, com isso vem algumas surpresas, mas sem os balões, com certeza não existiria filme.

Mas para tudo ficar ainda mais interessante (pelo menos na tentativa), o espectador é jogado dentro desse planeta durante o ano 2257. Por lá, em um lugar onde só existem homens, Tom Holland vive Todd, um jovem que vive nesse lugar, mas acaba encontrando uma nave que caiu no planeta e, ainda por cima, com uma tripulante (Daisy Ridley).

Já sobre os balões de pensamento, enquanto as mulheres não são afetadas, os homens todos projetam seus pensamentos do lado da cabeça. A ideia é interessante, o resultado disso fica em um meio termo entre o constrangimento e uma baita ferramenta para a atuações do elenco. Portanto, mesmo parecendo ridículo, o “Ruído”, como eles chamam, é um detalhe interessante e que coloca o filme em um lugar diferente.

Principalmente, pois o tal Ruído são os pensamentos sem filtro, e como o começo do filme diz, sem o filtro o homem é caos. Infelizmente, o roteiro escrito por Patrick Ness e Christopher Ford não conseguem aproveitar esse conceito tão bem assim. O texto, mesmo podendo mostrar tudo que está por trás das falas dos personagens, é um desfile de diálogos expositivos. Isso, além de estruturar todas surpresas da trama em uma desculpa que, simplesmente, não funcionaria nesse cenário. Se todo um grupo de pessoas sabe de uma verdade e todos pensamentos deles são expostos, seria impossível que eles não deixassem que a verdade surgisse em seus Ruídos em algum momento. Consequentemente, o protagonista não ter desconfiado nunca de nada, é absolutamente impossível e conveniente.

Mesmo assim, Mundo em Caos funciona enquanto tropeça por aí. O experiente Doug Liman na direção ajuda, já que cria um filme dinâmico e que tem ritmo, assim como não deixa que essa surpresa demore muito para ser desvendada, assim o espectador não percebe a bobagem pela qual a trama se sustenta.

Por outro lado, fica a impressão de não valorizar muito a surpresa, isso enquanto o filme mergulha em muita ação e correria. Liman sabe como fazer esse tipo de ação, então o resultado é divertido e empurra bastante o filme, mas ainda assim o mais legal de O Mundo em Caos está na sua mitologia.

A história é a adaptação da série de Patrick Ness e a criação desse mundo, dos detalhes do passado e de como a humanidade chegou naquele planeta, é a parte mais legal do filme. Assim como o conceito por trás da ideia de as mulheres não estarem mais naquela vila onde vive o protagonista, principalmente por aquilo refletir uma misoginia clássica que conversa com a existência do Ruído de modo inteligente, crítico e mais verdadeiro do que qualquer um gostaria.

Enquanto você se diverte conhecendo essa história toda e é ludibriado pela ação toda, talvez Mundo do Caos divirta mais do que incomode. Essa sensação de acerto passa também pelo elenco. Holland é sempre alguém que se esforço para entregar o personagem, mesmo sem muita coisa em mãos, com Daisy Ridley mantendo a mesma simpatia dele e conseguindo criar uma boa química, principalmente, pois ambos trabalham bem a ideia da existência do Ruído em suas reações. Mas é o elenco de apoio que faz tudo funcionar ainda mais.

Demián Bichir cada vez mais parece ser a escolha perfeita de elenco em todos filmes que aparece, seja qual personagem tem em mãos, nesse caso, como o pai do protagonista. Já David Oyelowo segura no colo uma loucura meio religiosa e excêntrica, cheia de raiva e com o personagem que melhor usa o tal do Ruído. A incrível Cynthia Erivo tem pouco tempo de tela, mas sempre é bem-vinda em qualquer filme. Por fim, Mads Mikkelsen, na pele do vilão, mais uma vez demonstra que só sua presença em qualquer filme acrescenta um lado de imperdível ao filme.

Mas Mundo em Caos não é imperdível, talvez nem vá agradar muita gente, mas mesmo assim é uma tentativa honesta de ir em busca de uma ficção científica diferente e com objetivos bem claros. Não quer ser um filme com armas laser e “navinhas”, tem ambos, mas também quer contar uma história maior. Quer permitir que o espectador pense a respeito desses detalhes e do quanto a humanidade iria se comportar em uma situação desse tipo. Também sem surpresas, já que sempre que e possível a humanidade preferiu um caos ao bom senso em qualquer momento da história, portanto, uma ficção científica nem tão ficcional assim.


“Chaos Walking” (EUA, 2021); escrito por Patrick Ness e Christopher Ford, a partir do livro de Patrick Ness; dirigido por Doug Liman; com Tom Holland, Daisy Ridley, Demián Bichir, David Oyelowo, Kurt Sutter, Cynthia Erivo, Nick Jonas e Mads Mikkelsen


Trailer do Filme – Mundo em Caos

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