Mulher Maravilha 1984 | Vontade de rodar o mundo ao contrário e esquecer


Mulher-Maravilha 1984 é um desperdício enorme. Tudo que deu certo no primeiro filme está lá, com a diferença de agora com mais liberdade, por mais que isso pareça não fazer diferença. Patty Jenkins volta à direção, Gal Gadot se mantém sendo a melhor Mulher-Maravilha possível, mas o resto é um desperdício enorme.

Jenkins também assina o roteiro em parceria com o escritor de HQs, Geoff Johns, e talvez aí esteja o real problema desse de Mulher-Maravilha 1984, afinal, nada faz muito sentido e durante 150 minutos você é obrigado a aguentar um amontoado de boas intenções jogadas no lixo.

As premissas são boas, por mais que batidas e comuns, mas é o jeito como tudo é ligado que parece ser muito mais uma costura dispersa e mais preocupada do que devia com um punhado de fan services, homenagens e easter eggs. Desde o campeonato bobinho na cena inicial, que só serve para visitar a Ilha de Themiscyra, até a referência ao final ao Superman de 1978, que volta através de uma solução igualmente imbecil e descabida, além de agora parecer ainda mais brega.

Sem contar, é claro, a trama do filme ser completamente construída através de uma pedra mágica que surge de lugar nenhum. A tal pedra acaba sendo o objetivo do empresário Maxwell Lord (Pedro Pascal), que sabe que ela tem o poder de conceder os desejos de quem à toca. É lógico que isso traz problemas para Diana (Gadot) e também para sua amiga de trabalho Barbara Minerva (Kristen Wiig). Mais do que isso talvez acabe contando demais sobre a trama, se é que alguém se manterá interessado por ela durante o resto do filme.

O que não é segredo é que Mulher-Maravilha 1984 tem pouca Mulher-Maravilha. Talvez isso seja um dos maiores problemas do filme. É lógico que isso é um defeito de um monte de filmes da Warner e de seus super-heróis, sempre se preocupando muito mais com os vilões e com os heróis sem seus uniformes coloridos, mas nem por isso continuar persistindo no erro é uma solução viável. Pior ainda, o primeiro Mulher-Maravilha deixou claro que era possível fazer o contrário, regredir agora nesse erro é frustrante.

O pior é que que falta Mulher-Maravilha, mas também falta um vilão mais ativo. Lord e Minerva perambulam pela trama por tempo demais sem se tornarem um perigo real para a heroína. É lógico que isso faz parte da construção do terceiro ato que culmina com os caminhos se entrelaçando, mas tudo é longe demais, afastado demais, disperso demais.

Essa bagunça é preenchida com um monte de bobagens, não só o jato invisível, que é realmente uma idiotice. A volta de Steve Trevor (Chris Pine) se encaixa bem na trama, mas pouco importante para a história maior. Diferentemente do filme anterior, Trevor não está lá para humanizar a protagonista, mas sim surge quase como um alívio cômico que permite que o exagero dos anos 80 sejam ainda mais claros. Alguns momentos são realmente divertidos, mas falta uma razão maior para ele existir na trama.

E o mais triste, enquanto o primeiro filme foca na Mulher-Maravilha, esse segundo tem uma vontade enorme de ser sobre os homens da trama. O que é um desperdício estrutural. É lógico que é a heroína que aprende as lições e consegue enfrentar o mal, mas ela nem consegue derrotar o vilão sozinha, muito menos se permite vencer sua vontade de deixar tudo de lado e ir curtir seu amor. O que, em termos de responsabilidade, está muito longe daquela personagem que foi construída anteriormente.

Felizmente, com mais dinheiro, Jenkins consegue fazer um filme muito mais vistoso e colorido, já que não está mais em busca desse momento da humanidade em guerra, mas sim de uma década presa ao exagero e consumismo. A ideia, felizmente, combina com o eixo central da trama, o que, pelo menos, não deixa que o filme se disperse e soe unido em todas suas intenções.

Do outro lado, Jenkins não consegue tirar do visual interessante e empolgante um trabalho que valorize tudo isso. Suas cenas de ação não empolgam e parecem reféns de uma repetição de certos movimentos do primeiro filme, como se precisasse recriar aqueles momentos que os fãs adoraram ver em câmera lenta. A fórmula, os conceitos e ideias deveriam servir de ponto de partida, a cópia das sequências parece ser só mais do mesmo.

Isso fica extremamente claro quando você percebe o quanto a melhor cena do filme mostra a Mulher-Maravilha descobrindo o voo. Um misto de catarse emocional com beleza, composições certeiras e uma perfeita homenagem ao Superman de 1978 (pouco antes de referenciar ele com seu final ruim). A cena é, justamente, aquele momento novo que deveria ditar o filme, mas acaba ficando sozinho dentro de todo desperdício.

Comparar esse segundo filme com o primeiro pode até parecer chatice, mas o culpado é o alto nível estabelecido. É impossível ignorar o precedente sendo essa uma continuação tão próxima e direta. O problema é que ninguém espera um resultado tão pequeno e tacanho quando comparado ao primeiro. Bonito como a armadura dourada que a heroína veste na cena final, mas rasteiro como a razão para ela tomar essa decisão estética. Se bem que no caso da armadura, ela vai vender um monte de bonequinhas, já em se tratando da trama, o melhor é esquece-la mesmo.


“Wonder Woman 1984” (EUA, 2020); escrito por Patty Jenkins e Geoff Johns; dirigido por Patty Jenkins; com Gal Gadot, Chris Pine, Kristen Wiig, Pedro Pascal, Robin Wright e Connie Nielsen