Mosul | Um dos melhores filmes de ação do ano


É impossível qualquer fã de filmes de ação não se empolgar com Mosul. Passado completamente em meio ao conflito do Iraque com o Estado Islâmico, todo falado em árabe, com personagens e conflitos regionalizados e uma qualidade de produção que não deixa o filme devendo nada para nenhum americano. Um sopro dentro de um gênero tão refém de Hollywood.

Até que os créditos finais sobem e você vê o nome do diretor americano Matthew Michael Carnaham, tanto na direção, quando no roteiro escrito a partir de uma reportagem do The New Yorker. Logo depois, na produção ainda tem o nome dos irmãos Joe e Anthony Russo. Consequentemente, parece que não é americano, mas é. E isso não é um problema, já que o resultado é incrível.

Mosul é uma nova produção da Netflix que chega ao catálogo enganando muita gente que acredita no primeiro parágrafo, quem fugir do “filme internacional”, vai acabar perdendo um dos filmes de ação do ano. A história segue essa unidade especial iraquiana, a SWAT de Ninéve. O filme começa, justamente, com esse grupo de policiais de elite salvando uma dupla de “policiais comuns” e “alistando” um deles para uma missão misteriosa.

O ritmo do filme não para, começa com esse tiroteio tenso e cheio de balas e praticamente não para mais enquanto o grupo mergulha em território recém-libertado do Estado Islâmico, enfrentando os resquícios dessa ocupação. É fácil se sentir dentro desse lugar destruído pelo conflito urbano. O grupo da SWAT se mantém seguindo em frente como se o objetivo final fosse maior do que a simples sobrevivência.

Carnaham é preciso no quanto valoriza cada um desses componentes do grupo especial, cada morte é sentida e cada vez mais o espectador se acostuma com essa família à base das metralhadoras e de uma missão maior que eles. Em certo momento o líder do grupo se refere aos parceiros mortos como “filhos”, enquanto outro fala de “irmãos”. No meio desse cenário sem vida e com pouca esperança, o conceito de família é um fio solto de racionalidade que precisa ser agarrado por todos.

Mosul é sobre isso, sobre a esperança desses personagens e sobre a responsabilidade que eles têm dentro dessa guerra. Por mais que ela seja dolorosa, suja, intensa e quebradiça. Um tiro vindo de lugar nenhum pode apagar toda essa existência, mas o caminho deles deve seguir.

É lógico que essa profundidade e esse monte de sentimentos só funcionam, pois, o ritmo de Mosul não para e a ação é frenética e empolgante. A agilidade dos tiros e a proximidade da ação valorizam os momentos de calmaria e o filme é tremendamente equilibrado.

Carnaham surge pela primeira vez na cadeira de diretor depois de alguma experiência de roteirista. Entre seus melhores trabalhos, assinou os igualmente frenéticos O Reino e Horizonte Profundo, além de recentemente ter escrito o tenso O Preço da Verdade e o policial Crime sem Saída. Curiosamente, sua facilidade com um visual mais cru e mexido é quase o oposto estético do trabalho espalhafatoso do experiente irmão Joe Carnaham, de Narc, Esquadrão Classe A e A Última Cartada.

O “Carnaham de Mosul”, curiosamente, chega mais perto de seu parceiro e sempre interessante Peter Berg (cineasta com o qual trabalhou em O Reino e Horizonte Profundo). Uma câmera perto dos personagens, que sente as balas passando e se amontoa pelos corredores apertados junto com seus heróis. Isso mesmo, Carnaham encara seus personagens como heróis, desde suas condutas, até motivações e momentos de coragem.

Mosul tenta ser diferente e enxergar esse conflito através do olhar de gente que não está a um oceano de distância e está lá como invasor, por mais que o SWAT recorra aos Estados Unidos, a anedota fica nesse ar quase irrespirável. Não se sabe de onde virá o próximo tiro e a única possibilidade de manter a sanidade é seguir em frente em direção a uma missão maior do que qualquer obediência superior ou estrutural.

Por mais que seja feito por americanos e isso venha com um monte de estereótipos narrativos, Mosul tem uma produção impecável e um sentimento que irá conquistar o espectador que, muito provavelmente, será enganado vendo um “filme internacional”. Mas isso não deveria importar, já que qualidade não tem nacionalidade, e Mosul é um impecável trabalho que deve se tornar um dos melhores do gênero no ano.


“Mosul” (EUA, 2019); escrito e dirigido por Matthew Michael Carnahan, a partir de um artigo de Luke Mogelson, com Waleed Elgadi, Thaer Al-Shayei, Suhail Dabbach, Adam Bessa, Is´haq Elias, Bem Affan e Mohimen Mahbuba


Trailer do filme – Mosul