Mosquito | Uma savana nunca foi tão desinteressante


Mosquito, um filme português, é sobre a introspecção de um garoto em uma guerra próximo do final. Ele tem 17 anos e como todo jovem descerebrado e cheio de energia para morrer, espera poder fazer parte de uma batalha, mas está em um pelotão cujo objetivo é ficar “de boa na lagoa” (no caso, “na savana”).

Então ele acaba se distanciando e vivendo uma imersão cultural numa tribo onde só há mulheres. “Onde estão os homens?”, ele questiona. “Quem é o chefe?”, se pergunta, ignorando que boa parte da força braçal entre o exército português são os escravos de suas colônias. Ele próprio vira escravo, pois é pequeno e mirrado e abatido. A escravidão já existia na África, e aqui é visto sob o ponto de vista invertido como algo mais “humano”.

Engraçado o poder de julgar a humanidade pelo quão gente boa você é para o seu escravo. Hoje em dia, por exemplo, a questão escravista fica apenas no passado muito recente, ignorando que já era praticada pelo menos desde a Antiguidade.

O delírio do garoto, picado pelo título do filme, é usado para relativizar suas viagens. Quando ele encontra dois desertores, um português, outro alemão, eles possuem dois motivos bem distintos. O português o chama para viagens mais amalucadas. O alemão tenta trazê-lo de volta para a sanidade. Ambos são inúteis, pois de uma forma ou de outra o garoto sempre sai perdendo.

Há uma única cena verdadeiramente chocante, no final, que é quando acordamos. Apesar de lugar-comum de guerra, gostaríamos que não fosse verdade. Pelo menos a sanidade do garoto volta ao normal.

Óbvio que o filme é anti-belicista. Qual a relevância aqui? Este é um filme sobre a lei do mais forte. “O leão é o que ruge mais alto”, um comandante diz a ele. Mas esta é uma história onde quem ruge mais alto troca de lados várias vezes, seja pela força física ou pela lucidez.

É uma viagem meio teatral, baseada em movimentos de câmera cambaleantes e um garoto ligeiramente abobalhado. Não há momentos visuais brilhantes como nos claramente fontes de inspiração Além da Linha Vermelha e Resgate do Soldado Ryan. É cansativo não compartilharmos das mesmas motivações de um garoto de 17 anos.

Já a atuação de João Nunes Monteiro é má utilizada. Ele é o elo mais fraco da história, mas precisa ser o mais forte em seu protagonismo. Sem protagonistas o filme naufraga. A savana africana nunca foi tão desinteressante. Mesmo com uma fotografia de primeira.


“Mosquito” (Por, 2020); escrito por João Nuno Pinto, Fernanda Polacow e Gonçalo Waddington; dirigido por João Nuno Pinto; com João Nunes Monteiro, João Lagarto e Filipe Duarte.


CONFIRA A COBERTURA COMPLETA DA 44° MOSTRA INTERNACIONAL DE CINEMA DE SÃO PAULO