Monsier e Madame Adelman | É uma pena que vá passar despercebido

Monsier e Madame Adelman Filme

dropcap]M[/dropcap]onsier e Madame Adelman deve passar despercebido por grande parte dos espectadores do Brasil., o que é uma pena, já que o drama francês é um daqueles exemplos onde uma história ambiciosa pode ser simples, sensível, tocando e surpreendente.

O filme começa com a morte desse “Monsier Adelman”, um respeitado escritor que falece com toda pompa e honra de um imortal das letras francesas. Sua esposa, mesmo companheira dele até seus últimos momentos, sofre sob os olhares julgadores dos amigos do falecido, e para “exorcizar” esse sentimento, resolve contar a verdadeira história de seu marido para um jovem escritor que está preparando a biografia do autor.

E “verdadeira história” pode ser entendido como a visão que ela resolve passar para o escritor, o que logo de cara fica claro enquanto ela exalta o personagem em sua juventude, quando ela o vê pela primeira vez, lá no começo dos anos 70, enquanto o que surge na tela é quase uma paródia da narração.

Talvez ai esteja um dos pontos mais interessantes de Monsier e Madame Adelman, essa vontade dela de “ficcionar” sua lembranças para que elas se encaixem melhor na biografia póstuma do marido. Um recurso bem humorado que dá vida ao filme, e melhor ainda, possibilita que, enquanto se forma para o escritor uma imagem quase mítica do personagem central de história, o que espectador vê é um cara meio ridículo, que tem lá seu charme esnobe (como todos franceses têm), mas no final das contas é apenas um cara inseguro.

Melhor ainda, o roteiro de Nicolas Bedos e Doria Tillier (que na verdade ainda são as estrelas do filme), sutilmente vai mostrando que a história nunca foi sobre o “monsier” (Nicolas Bedos), mas sim sempre sobre a “madame” (Doria Tillier), essa mulher forte e decidida, que passa por quase cinco décadas onde vai da felicidade até a mais profunda tristeza e até abuso. É essa personagem complexa que faz o filme valer a pena e torna ele tão interessante.

Monsier e Madame Adelman Crítica

E na verdade, é à partir dela que nascem as melhoras situações do filmes. Desde de diálogos divertidíssimos, como em uma ceia de natal, até a firmeza com que o roteiro faz o espectador mais acostumado com o mundo da literatura rir de uma série de referências e sutilezas.

Melhor ainda, o modo como ela vai se contradizendo em sua narração seu passado, carrega o espectador para um final surpreendente. Na verdade não “um final”, mas sim três fechamentos que deixam toda história ainda mais sensível, complexa e divertida. Isso mesmo, não basta o riso, há também e carga emocional profunda e que discute o amor desses personagens de modo puro e verdadeiro.

Entre crises e quase um relacionamento disfuncional, o que sobrevive é um amor simbiótico onde um depende do outro para que consigam ser quem realmente são. Um filme sobre não se ter tempo de voltar atrás, mas que pelo menos dá a oportunidade dele reescrever seu passado.

E Nicola Bedos (que também assina a direção) acompanha isso tudo de modo moderno, ágil, bem construído sob uma montagem rápida ao mesmo tempo que encontra espaço para sequências longas, que penetram em festas e se permitem ser planos detalhes (como se estivesse sendo descrito em um livro), tudo sem corte. Um preciosismo técnico que sabe dar espaço para o ¿arroz com feijão¿ nas horas que é apenas sua história que está sendo contada.

Mas sobre tudo isso, Monsier e Madame Adelman é uma espécie de estudo de personagem onde tanto a câmera, quanto o narrador, julgam esse protagonista, escondem a verdade e desconstroem qualquer possibilidade heroica dele. Bem pelo contrário até, em certo momento o rebaixam a uma figura vil e violenta. E isso, já que tanto Nicolas Bedos, quanto a protagonista, Madame Adelman, sabem que quando a ficção é melhor que a realidade é melhor imprimir a ficção.


“Mr & Mme Adelman” (Fra/Bel, 2017), escrito por Nicolas Bedos e Doria Tillier, dirigido por Nicolas Bedos, com Doria Tillier, Nocolas Bedos, Antoine Gouy Denis Podalydès.


Trailer – Monsier e Madame Adelman

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