Meu Malvado Favorito

por Vinicius Carlos Vieira em 21 de dezembro de 2010

Pode até parecer exagero, mas em um cinema atual, onde cada vez mais a animação (seja digital ou não) anda em passos firmes para se consolidar como um gênero independente de qualquer outro, “Meu Malvado Favorito”, tentativa da Universal de entrar no filão, acaba sendo só isso mesmo: uma tentativa.

Dirigido por Pierr Coffin e Chris Renauld (o segundo tendo até sido indicado a um Oscar por seu curta com o esquilinho da “Era do Gelo”), a história desse Gro, um vilão que tem enfrentar um malfeitor mais jovem ao mesmo tempo em que acaba precisando cuidar de um trio de garotinhas órfãs, é raso, pouco engraçado e até um pouco prepotente de achar que somente seu visual (e algumas vozes famosas) pudesse salvá-lo.

Primeiro, uma estrutura batida demais que pouco convence, onde o protagonista tem que sair de sua zona de conforto quando vê seu posto de “maior vilão” ameaçado, mas que no final acaba mostrando um coração enorme, isso sem se preocupar muito em, nem ao menos, mascarar essa liçãozinha de vida. É lógico que os menores podem até não pescar tudo isso logo de cara, mas mesmo esses vão, provavelmente, se irritar quando, do meio para frente (ou na verdade com a entrada das três), todo ritmo parecer cair demais.

Se logo de cara, “Meu Malvado Favorito” até pode empolgar com a corrida entre os dois vilões por roubos e planos malucos, tudo perde força quando, aos poucos, o roteiro de Ken Daurio e Cinco Paul resolve, de modo psicológico, dar aos seus personagens motivações que só passam por figuras maternas e paternas. As três procuram um pai, Gro quer o respeito da mãe, Vector (o vilão jovem) o do pai, Nefário (inventor de Gro) perde seu lugar como figura paterna, e os amarelos Minions (uma espécie de “umpaloompa” do vilão) “descobrem” que são uma família. Não que tudo isso não possa ser colocado em pauta, mas quando o assunto parece ser só esse, tudo se torna um pouco desgastante.

E por mais que a idéia seja lidar com vilões, “Meu Malvado…” faz pouquíssimo para criar essa impressão em qualquer um dos personagens. No início Gro enche cachorrinho de bexiga para uma criança, para logo depois furá-lo apenas para ver sua cara de choro, mas infelizmente, esse cara divertidamente mal some depois disso. Assim como todo resto do mundo, tudo se fecha naquele pequeno núcleo de personagens, ainda que eles disputem para serem maiores em um lugar (cidade, país, planeta até) que é totalmente ignorado, deixando difícil medir seus tamanhos quando não parece haver reação à existência deles.

Mas talvez, como pode acontecer nas animações, um roteiro, ou uma idéia, pouco inspirados pode até acabar sendo “escondido” por um visual bacana, aqui, tal coisa até se esforça para acontecer em 3D, já que a todo tempo a idéia parece ser criar mais e mais experiências que se arremessam na direção da câmera (com até um passeio em uma montanha-russa, e uma sequencia pós-créditos onde os diminutos Minions tentam chegar ao limite da tela). O problema óbvio é que, na tela na TV, tudo isso só demonstra o quanto o sucesso daquilo tudo dependeria dessa inovação técnica. Uma muleta estética, que o cinema já vem aprendendo a deixar de lado, e ir ao seu encontro acaba sendo um retrocesso desnecessário. Principalmente em uma animação, onde o limite é quase sempre o da imaginação.

“Meu Malvado Favorito”, no fim das contas acaba não empolgando, justamente por não se importar de ser “bonitinho” e “animado” demais, talvez até demasiadamente infantil (ao mesmo tempo em que deixa escapar, mesmo que um pouco rápido demais, algumas pequenas referencias, como a cabeça por baixo do lençol de “O Poderoso Chefão” e até a sombra de Hitchcock nos créditos finais), apostando apenas nesse charme plástico para os menores, mas nem nisso funcionando, já que esquece do principal: empacotar tudo isso, acertos e erros, com um pouco mais de diversão.

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Despicable Me (EUA, 2010), escrito por Ken Daurio e Cinco Paul, a partir de uma história de Sergio Pablos, dirigido por Pierr Coffin e Chris Renaud, com vozes de Steve Carrel, Jason Segel, Russel Brand, Julie Andrews e Will Arnett

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