Mentiras Perigosas | Você não vai lembrar nem desse título


Era manhã ainda. A cortina meio aberta deixava uma fresta de luz rasgar um dos cantos da TV. O café esfriou bem antes do final do primeiro ato. A previsão do tempo falava em frio, mas o sol forte esquentava tudo. Estava calor. É fácil lembrar de tudo isso, mas não lembrar de quase nada de Mentiras Perigosas um dia após assisti-lo.

O filme estava lá, entre os mais vistos da Netflix, mas ninguém sabe o que isso quer realmente dizer. Assim como não confirma que esse monte de gente que o viu ainda lembra dele. Provavelmente não o façam. E isso nem deveria ser um problema, é de um amontoado de produções esquecíveis que surgem as pérolas a serem lembradas.

Que não é esse caso.Esse vai ser esquecido mesmo.

Geralmente esses filmes que não serão lembrados tem problemas estruturais que extrapolam qualquer possibilidade de serem apreciados com o mínimo de interesse. Nesse caso, um roteiro escrito por David Golden, que, em pouco mais de 20 anos de carreira escrevendo para produções televisivas, tem oito produções de Natal no currículo. Um detalhe que quase nunca é bom para o currículo de ninguém.

Mas perto do Papai Noel, Mentiras Perigosas é bem ousado. Tem uma trama de suspense com jeitão de clássica e que nas mãos de um diretor como Alfred Hithcock, se tornaria uma daquelas histórias sufocantes onde ninguém está salvo da reviravolta final. Achar que o Hitchcock se envolveria com uma história dessas pode parecer exagero, mas não é, principalmente, pois se ele estivesse assinado a direção talvez ninguém fosse esquecer tão rapidamente do filme.

Nesse caso, a direção fica com Michael M. Scott, que vem há quase 40 anos dirigindo produções feitas para a TV. E se essa frase é entediante, seu trabalho segue o mesmo rumo.

Voltando ao roteiro de Mentiras Perigosas, ele é tão frágil e atravancado que é difícil entender como aquela história “ficou em pé”. O casal de protagonistas é tão perdido dentro de sua própria história que, boa parte de suas ações, obedecem uma motivação que faz pouco ou nenhum sentido. Principalmente se você não é convencido pela preguiça narrativa que transforma ambos protagonistas diante de uma situação tão simples.

O começo onde eles precisam lidar com um assalto na lanchonete onde ela trabalha só serve para … não serve para nada. A ideia da ganância dos dois diante de uma herança após a morte de um idoso que ela cuidava, beira o absurdo narrativo e joga sobre as costas do namorado a responsabilidade descabida de se tornar uma espécie de vilão maléfico que só não enrola o bigode com a ponta dos dedos, porque o pessoal da maquiagem não pensou na possibilidade.

A velocidade com que tudo isso acontece parece apressado, mas é perfeita, já que assim o filme só dura 96 minutos, o que ajuda a você se livrar logo desse desastre e ir ver outro filme na lista do serviço de streaming.

Em algum momento da trama ainda surge Cam Gigandet (que todo mundo já viu em algum lugar, mas não lembra de onde… ), nesse personagem misterioso, e Sasha Alexander (que o pessoal da TV lembra da série Rizzoli & Isles… tudo bem, ninguém lembra dessa série também) como uma detetive que não deixa de fora de sua composição um sobretudo que deixa tudo ainda mais brega com as mangas arregaçadas e uma vontade enorme de trazer esse clima noir para o filme. Obviamente isso não acontece, então pode esquecer a referência também. Assim como o começo na lanchonete e o filme inteiro.

E se você achar que em certo momento existe uma homenagem ao Hitchock envolvendo uma escada, também é melhor achar que isso não aconteceu e esquecer tudo.

Talvez Mentiras Perigosas só tenha ficado lá entre os filmes mais vistos, pela presença de Camila Mendes como protagonista, que é estrela da série Riverdale e, obviamente, vê esse filme como oportunidade para desatrelar um pouco seu nome da televisão e “ganhar os cinemas”. As aspas estão aí para lembrar que, será difícil que essa tentativa dê em qualquer resultado concreto.

Jessie T. Unsher vive seu namorado, também vindo de uma série, nesse caso não bem da TV, mas sim da Amazon Prime, já que vive o “herói” Trem Bala em The Boys. Unsher ainda recentemente viveu o mais jovem Shaft no filme produzido pela Netflix em 2019.

Ambos, Mendes e Unsher, não fazem nada digno de lembrança, portanto ninguém também irá lembrar dos dois em Mentira Perigosas. Nem deles, nem do filme, nem da janela aberta e, muito menos, desse texto aqui.


“Dangerous Lies” (EUA, 2020); escrito por David Golden; dirigido por Michael M. Scott; com Camila Mendes, Jessie T. Usher, Cam Gigandet, Michael P. Northey, Sasha Alexander e Elliot Gould.


Trailer do Filme – Mentiras Perigosas

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