Melancolia | A experiência pesada de encarar o inevitável


Por mais que o cinema tenha um receio imenso de eleger novos gênios da sétima arte enquanto aqueles que mudaram o cinema nos anos 70 e 80 ainda mantêm a vitalidade de suas obras, talvez já seja hora dessa porta ficar aberta para, pelo menos, alguns poucos nomes entrarem nessa sala. E o dinamarquês Lars Von Trier seria um dos primeiros dessa fila.

Primeiro, pelo caminho corajoso com que vem traçando sua carreira, desde o movimento Dogma 95 (que talvez tenha sido o único que o cinema tenha visto nas últimas três décadas) passando por sua Palma de Ouro em Cannes por Dançando no Escuro e chegando até hoje, com seu Melancolia, uma estarrecedora visão do fim.

É verdade que Von Trier parece menos focado em contar uma história propriamente dita, como no perturbador Anticristo, mas, ao mesmo tempo, mostrando que essa nova fase de sua carreira acaba então tendo sido despertada pelo próprio, que foi realizado depois de uma crise de depressão que abateu o cineasta. Com isso, Melancolia tenta então traçar um paralelo entre duas irmãs e a aproximação de um enorme planeta (que nomeio o filme), supostamente em rota de colisão com a Terra.

Em outras palavras, Lars Von Trier, à seu modo peculiar, faz um filme catástrofe para chamar de seu.

Peculiar, por que nem por um segundo Melancolia dá qualquer esperança que seja para seu espectador, e é nesse momento que se entra no terreno fértil da mente do diretor. Von Trier deixa a impressão de que, mesmo em pouco tempo do início do filme tudo tenha acabado sob os acordes de Wagner (em Tristão e Isolda) em uma belíssima sequência em câmera lenta (assim com em Anticristo) que culmina com o choque e a destruição, da Terra, o que vem depois é um exercício poético e inquietante sobre o que fazer quando tudo é inevitável.

Mais ainda, por um momento, onde segundos se tornam minutos e tudo parece se mover sem sair do lugar, presente, passado e futuro se encontram entrelaçados nessa espécie de pesadelo apocalíptico, onde Kirsten Dunst e Charlotte Gainsburg, são mães, irmãs, noivas e esposas, enquanto tudo ruma para um esse fim.

Melancolia é então apresentado em dois tempos, nomeadas através das duas irmãs. O primeiro, com a noite de casamento de Justine (Dunst, perdida no infinito) e depois pelo olhar de Claire (Gainsburg em mais um papel marcante) às portas da tragédia, sem saber o que fazer diante da chegada desse planeta.

Talvez seja por meio dessas duas personagens que Von Trier tente pintar esse retrato cruel e exposto, que (como as imagens que Justine escolhe para ilustrar o escritório) parece ser impossível de desviar o olhar. Melancolia talvez seja isso então, aquele acidente automobilístico que não lhe deixa prestar atenção em mais nada e depois não se esvai de seus pensamentos.

O cineasta dinamarquês faz isso, principalmente, por se sentir confortável entre símbolos e significados, como se soubesse que nenhuma história consegue ser contada apenas com as imagens (pelo menos não as dele). É a partir desse princípio que Melancolia traça esses dois momentos, esses dois olhares, esses dois modos de encarar o que vem em seguida.

Justine, assim como em seu pesadelo no começo do filme, tenta andar por essa floresta, mas está presa a uma espécie de cipó trançado em volta de suas pernas, apática diante não só dos convidados de sua festa, como do mundo que a cerca, espremida por uma família que parece não conseguir aceitar essa dor que lhe faz se arrastar sem objetivo por sua vida. À sua volta, ninguém parece capaz de aceitá-la do jeito que ela é. Talvez nem ela mesma.

Do outro, nesse segundo momento, Justine (agora em uma atuação esplendorosa de Dunst, sobrecarregada pelo peso da personagem e, literalmente, cambaleando por esse mundo) se torna quase um resquício daquela mulher e, destruída por uma depressão, acaba indo passar uns dias com sua irmã Claire. É a partir daí que Von Trier engancha seu espectador nesse retrato brutal da alma do ser humano, já que o tal Planeta Melancolia está a dias de cruzar o caminho da Terra e, enquanto parte da comunidade científica (como o marido de Claire prefere enxergar) se mostra despreocupada com a aproximação dos dois, uma outra parte não consegue fugir da sensação de catástrofe que vem a seguir.

Von Trier não está preocupado com essa esperança, já que, de acordo com o começo do filme, é tudo inevitável, mas sim procurando  entender como cada um se portaria diante do fim. Não o mundo, mas apenas essas quatro pessoas. Como sempre, o cineasta está sim em busca da pessoa, da unidade e do ser humano como único em uma situação que ele acaba não tendo controle.

Claire vê aquilo como o fim de sua família, de seu filho, do amor com seu marido, é incapaz de compreender o inevitável da vida e só observa de longe sua irmã Justine se banhando nua ao reflexo azulado que o Planeta Melancolia colore as noites com sua aproximação. Do outro lado, Justine, abatida pela depressão, vê nessa catástrofe a possibilidade do fim de toda essa dor de um mundo que parece não aceitá-la.

Muito embora nesse momento Von Trier talvez ainda tente se livrar dos fantasmas de sua própria condição recente, tentando buscar um significado para seu próprio caminho (já que teve que ¿matar¿ seus demônios em Anticristo) agora acaba então tentando mostrar que, diante do inevitável, ao invés de se debater e fugir sem objetivo como insetos, o melhor seja aproveitar o tempo que lhe resta, construir seu próprio abrigo e se juntar com quem (em poucos momentos ou não) conseguiu te aceitar durante o que passou. Se na psicologia a melancolia é a perda (diminuição) de si mesmo diante dos demais, como se não conseguisse se sentir apto a fazer nada com propriedade, são em momentos como esses (finais) que todos acabam então tendo a certeza de que, mais do que nunca, não existem diferenças.

E mesmo com essa espécie de pessimismo (que não é novidade, mas algo recorrente nas obras do diretor) o que Melancolia faz, não é mostrar o que ocorre, perigando cair em um pragmatismo que, muito pelo contrário, não combina com o cineasta, mas sim fazer cada um de seus espectadores pensar naquilo, tentar entender e imaginar o que se pode fazer quando se perde o controle sobre o mundo que você vive, quando nada mais importa a não ser o que já passou. Assim como não se esconde por trás de verdades próprias e apenas faz com que o espectador perceba que, seja em um casamento, na relação com a família ou em uma vida inteira, os ciclos mudam e tudo que começa acaba, mesmo que toda sua duração seja relativa.

Mas, ao mesmo tempo, Melancolia ainda tenta lembrar a todos que nada é mais substancial, palpável, calmo e relaxante que a esperança, seja apenas um fio dela que faz Claire relaxar ao sol, ou o contrário, que permite que todos esperem que a passagem do planeta seja apenas um acontecimento inesquecível e belo. E não a falta de caminho para seguir, já que todos levam ao mesmo lugar, mas a possibilidade de fazer com que cada momento tenha a possibilidade de ignorar esse peso e voar ao céu como os balões com palavras de celebração na noite do casamento de Justine. Justamente, não uma fuga, mas sim uma esperança.

No fim de tudo, Von Trier (que mais do que nunca parece não fugir de seu próprio Dogma95 e não esconde a dependência diante de seus personagens, com essa câmera inquieta, tremendamente plástica, mas, instintivamente sempre à procura do que está por trás daquelas pessoas) não foge do ritmo lento, que faz mais ainda que Melancolia seja essa experiência pesada, já que a idéia principal é mostrar que diante do inevitável, aquilo que se entende por tempo não liga em se estender, assim como faz com que o escuro do final do filme, e o silêncio com que os créditos ganham vida, seja reconfortante e um belo momento para todos tentarem entender o que acabaram de ver, já que Lars Von Trier mostra que não há jeito mais poético e belo de acabar com o mundo do que esse.


Melancholia (EUA, 2011), escrito e dirigido por Lars Von Trier, com Kirsten Dunst, Charlotte Gainsbourg, Keifer Sutherland, Charlotte Rampling, John Hurt, Alexander Skarsgard, Stellan Skarsgard e Udo Kier