Masters in Short | Várias visões, nenhuma novidade


A proposta da sessão Masters in Short da Mostra de São Paulo esse ano é apresentar alguns curtas de diretores consagrados. São cinco curtas ao total e seis diretores diferentes.

Nos é dito no início que a proposta tem relação com o período de quarentena esse ano, mas o único óbvio exemplo é o primeiro. A Visita, de Jia Zhangke, que apresenta dois cineastas se visitando para assistir a um filme sendo produzido. Todas as situações comuns vividas esse ano, como o medidor de febre à distância, o uso das máscaras e do álcool gel, e a proibição tácita de se dar as mãos, é revisitada. É um aceno de cabeça para o espectador que sabe bem do que o filme está falando. Talvez bem até demais para ser visto em um filme.

Os dois curtas seguintes são experimentais. Os Caçadores de Coelhos e O Adivinhador, de Guy Maddin, Evan Johnson e Galen Johnson, são absurdistas e caóticos. Enquanto narram a existência de adivinhos profissionais e o sonho de alguém que já morreu. Neles, usos diferentes de luzes e narrativas são tentadas para chamar nossa atenção. Ou pelo menos tentar, já que o resultado é nos afastar, nos pensamentos e para dentro de nossos próprios sonhos… dormindo.

Outro campeão em fazer passar sono é este Uma Noite na Ópera, de Sergei Loznitsa. Feito apenas com imagens de arquivos das décadas de 50 e 60 ele captura toda a pomposidade com que diferentes celebridades do show business e da política adentram o teatro de ópera em Paris, Palais Garnier. Cerca de 70% do filme é sobre a entrada da burguesia ao recinto e 30% vemos a performance de uma cantora. Que vale todo o preço, já que é uma performance de respeito, ainda que por alguns meros minutos.

Também vale uma espera a menos glamurosa Escondida, de Jafar Panahi, em que diretor e filha acompanham uma amiga até um vilarejo distante no Irã em que ela descobriu uma menina com uma voz maravilhosa. Proibida de cantar pela família, o clima deste curta é de documentário informal filmado com iPhones, o que combina bem com o estilo desse diretor. Eles filmam com dois celulares. Um deles se afasta durante a rápida performance da menina, escondida atrás de um pano. É nesse momento que aprendemos a função do movimento no cinema. Depois que a câmera para, não tem por que continuar a ouvindo.

Curioso como “a mágica” do cinema de repente some quando nada se mexe na tela. E a parada do movimento, em todos os sentidos… isso, sim, tem tudo a ver com a quarentena.


“Masters in Short” (Vários Países, 2020), dirigidos por Jia Zhangke, Jafar Panahi, Guy Maddin, Evan Johnson, Galen Johnson e Sergei Loznitsa.


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