Mandy: Sede de Vingança | #011 | 666 Filmes de Terror


Existem filmes que são feitos para serem sentidos. Mandy: Sede de Vingança vai além disso enquanto te joga em uma jornada psicodélica em direção ao inferno na companhia de Nicolas Cage, um machado, drogas e muito sangue.

Tudo em Mandy remete a essas referências. Ou melhor, tudo em Mandy é o mais completo e divertido exagero de todas esses detalhes que criam esse terror único e que mostra o quanto o gênero ainda tem fôlego para se renovar. O acorde distorcidamente psicodélico do começo do filme talvez te carregue para algum ponto entre 1960 e 1980 e poucos, mas seus pés estão em 2018, fazendo algo que ninguém mais faz.

Esqueça a sutileza que o terror se deixar leva pela preguiça dos milhões em bilheterias, tire os “jump scares” da equação e, muito menos, se escore nesse “neo terror” inteligentão, Mandy é bagaceira, da primeira lambida em um LSD até um gole de ácido concentrado. Das pupilas esbugalhadas até uma briga de serras elétricas que deveria entrar para o imaginário coletivo.

Mandy na verdade é vivida por Andrea Riseborough e, entre um livro de fantasia épica e alguns desenhos não menos fantasiosos, é a razão de viver do lenhador Red (Nicolas Cage). E isso está prestes a acabar quando uma seita à la Charles Mason (com direito a músico frustrado e tudo mais!) cruza seus caminhos. O grupo é comandado por uma figura meio languida chamada Jeremiah Sand (Linus Roache, de Vikings) e que, além dos seguidores malucos de plantão, ainda conta com a ajuda de uma gangue de motoqueiros que parecem parentes distantes dos Cenobitas.

Depois de citações bíblicas, frases malucas e psicologicamente profundas, Mandy acaba se tornando o sacrifício que eles precisam para purificar o que quer que seja… não importa, a única coisa que importa é que Red fica vivo, pega emprestada uma besta, forja seu próprio machado e vai em busca de vingança.

Mas não uma simples série de mortes, a cada passo que Red dá para dentro dessa vingança, mais ele parece adentrar nos confins se um inferno de luzes, personagens distorcidos, ideias etéreas, significados sibilantes e muito (mais muito mesmo!) sangue e gore. Não existe morte que não seja levado ao limite do sadismo para batizar a raiva do personagem e enche-lo de um vermelho que faz jus ao seu nome.

E tudo fica ainda mais perturbador e psicodélico graças ao trabalho do diretor Panos Cosmatos e do diretor de fotografia Benjamin Loeb. Cosmatos parece sempre em busca do enquadramento mais esquisito possível, sempre incomodamente próximo a seus atores, entrando em seus olhares e vislumbrando a chama de loucura que que toma conta de tudo. Loeb controla não só esse visual, como ainda cria um filme onde as luzes dançam um balé que abraça o espectador em um pesadelo onde nada parece nunca ficar parado.

O visual ainda obedece essa impressão de tudo estar sendo jogado em uma espécie de RPG de fantasia mestrado por um metaleiro do leste europeu. Os subtítulos parecem saídos da capa de algum disco extremo, enquanto a jornada de Red, até o “covil abissal” só não está sendo colocada em uma mesa com dados por falta de oportunidade. Não existe nada que desvie esse herói de sua caminhada, sempre em frente, ganhando as pequenas experiências sempre que dá de cara com um adversário e levando esses ensinamentos para quem vem a seguir.

Mandy é simples em toda sua estrutura e é isso que permite o filme ser esse estouro de cores, sensações, frases de efeito, personagens incríveis e, é claro, Nicolas Cage!

Com poucas linhas de diálogo e muita raiva, o Red de Cage é uma força da natureza que não pode ser parada. E antes que alguém ache que isso é um problema, lembre o quanto Cage é um ator exótico e consegue seus melhores trabalhos, justamente, na mão de diretores exóticos. Mandy é um desses momentos.

Sim, Red não é só um dos personagens mais interessantes do currículo de Cage, como também é um de seus melhores trabalhos. E não só pela dor da vingança e pela raiva sanguinária com que seus atos trucidam, decapitam e desmembram, mas sim por entender que o filme tem em sua canastrice bem encaixada, parte de um respiro quase cômico e que alivia a tensão estética. O exagero de Cage combina perfeitamente com o exagero de Mandy, assim como casa com o roteiro que não descansa enquanto não soltar algumas frases de efeito que poderiam, facilmente, entrar para anais do gênero.

Atacado por um cara coberto de couro ao melhor estilo S&M, Red grita “você rasgou minha camisa preferida” antes de matar o indivíduo. O riso no momento pode se tornar uma pontinha de tristeza quando, alguns momentos depois, em um flashback, você percebe que é essa mesma camisa que Red estava usando quando conheceu Mandy.

E talvez esse seja o objetivo principal de Mandy, criar esse filme onde o gore, o sangue, o exagero e Nicolas Cage estejam em função dessa jornada clássica aos confins do inferno. Cada vez mais profundo em meio a um cenário devastado e sem vida. Jeremiah, ajoelhado e pedindo clemência (na verdade oferecendo sexo oral em troca da sobrevivência), lembra que talvez tudo aquilo tenha sido uma provação para o verdadeiro destino de Red. “Eu sou seu Deus” relembra o personagem de Cage, justamente, porque é ele que decide quem vive e quem morre.

Mandy: Sede de Vingança então talvez seja esse épico sublime e espiritual, uma explosão sensorial que exala uma escuridão cósmica enquanto joga uma luz oscilante sobre a matéria prima que compõe o pesadelo. Mas sobre tudo isso é um terrorzão que deveria ser uma parada obrigatória para todos amantes do gênero.

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“Mandy” (UK/Bel/EUA, 2018), escrito por Panos Cosmatos e Aaron Stewart-Ahn, dirigido por Panos Cosmatos, com Nicolas Cage, Andrea Risenborough, Linus Roache, Ned Dennhy e Bill Duke.


Trailer do Filme – Mandy: Sede de Vingança

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